"And this is the house where I could be unknown, be alone now..."
Deve haver algo de estranhamente poético no fato de eu estar vivendo os últimos meses em Maracás, na Rua do Cuscuz. Pela rua e pela cidade. Cidade de meus vivos e de meus mortos. Rua dos negros da cidade, que foi meu objeto de pesquisa na graduação em História. Releio hoje aquelas páginas que me introduziram no mundo acadêmico e acho graça na paixão e na inocência com que escrevia. Hoje estou mais domado. Anos atrás, quando vivia ainda em Maracás e tinha uma família convencional, era costume mudarmos sempre de casa. A nossa, própria, ficava em outra cidade, alugada a outros. A casa em Maracás mudava, mas a família permanecia. Meus pais chegaram a cogitar alugar uma casa na Rua do Cuscuz, e verde ainda em meus preconceitos temi ter de dizer que morava na Rua do Cuscuz. Na rua dos negros. Não foi daquela vez. Fomos para outros lugares de Maracás. A família, a convencional, essa acabou. Morreram meus pais, separei-me de meus irmãos, multiplicaram-se as casas onde vivi. E venho aprendendo a ser minha própria família.
Em Vitória da Conquista, para onde fui cursar faculdade e procurar um rumo para a vida, vivi em muitas casas também. Repúblicas que geralmente começavam democráticas e não raro degringolavam em anarquia - no pior sentido da palavra. Nas férias e nos fins-de-semana prolongados os colegas voltavam para suas casas, para suas famílias, e eu sentia o gosto estranho de dizer que ali, a república, muitas vezes uma terra de ninguém, era a minha casa. Mas isso nem sempre me incomodava. Eu aproveitava o espaço vazio para preenchê-lo com a companhia de quem me introduzia por novos caminhos, e que eu julgava que poderia vir a ser minha família. Ou era. Não sei.
Veio a crise na Argentina, em 2001. Os panelaços. O medo de que aquilo tudo alcançasse o Brasil. E então, com o dinheiro ganho pela morte de meu pai, resolvi comprar a minha casa. Que planejei desde o começo que não seria só minha. Brilho em olhos alheios foram definitivos para efetuar a compra. E por lá vivi durante dez anos. Lá eu vi deuses e demônios nascerem e morrerem. Lá eu pensei que finalmente voltaria a ter uma família. Até que a outra parte me lembrou que não éramos uma família. Ou ao menos não éramos mais. Sócios? Foi das coisas mais verdadeiras e tristes que ouvi em toda a minha vida. Como cantou Drexler: "El velo semitransparente del desasosiego un dia se vino a instalar entre el mundo y mis ojos. Yo estaba empeñado en no ver lo que ví, pero a veces la vida es más compleja de lo que parece".
E assim é que a casa se tornou novamente vazia e grande demais. Havia muita memória impregnada em suas paredes. Vendê-la não foi apenas uma tentativa de esquecimento, mas a aceitação e a concretização das mudanças. Saí de lá e deixei o pé-de-aroeira intacto, como prometi - a despeito de qualquer divindade que pudesse habitar ali ou não. A goiabeira, que num dia de insensatez cortei todos os galhos, já floria quando entreguei as chaves ao novo dono. Que não poupou a aroeira. Mas disse que deixaria o pé-de-goiaba exatamente onde estava, de pé. E estava em flor. Todo o mal que lhe fiz não foi, afinal, irreversível.
Até que o apartamento novo que comprei seja entregue, estou vivendo na cidade onde trabalho, Maracás. Retornar a Vitória da Conquista é uma questão de tempo, e mesmo isso deverá ser temporário. Voltar a viver em Maracás não é de forma alguma um peso para mim. Gosto da cidade. Do seu frio quase palpável. De sua gente - que é a minha gente, afinal. E dentre as possibilidades que tinha de viver com algum dos parentes, surgiu essa, de morar com meu primo Léo. "Primo-irmão", como ele faz questão de dizer. Essa coisa de proximidade, de alguém dizer "ele é dos meus", me fazia muita falta. Como ontem, quando depois de uma festa - e já estávamos todos "altos" -, outro primo, Sérgio, - "primo-irmão", aliás - me foi buscar, ao lembrar-se de que eu ainda estava lá. "Como assim, Jerry ainda está lá?". E voltou, "em cima do rastro", como se diz por cá. Assim, de forma gratuita. Um cuidado simples. Uma generosidade. Uma forma de se dizer e mostrar que se gosta.
Na semana passada morreu minha avó, Almerinda. Dona Meru, como era mais conhecida. Para mim simplesmente "Dinda". Foi assim que aprendi a chamá-la. Uma índia, ela. Ela que me dizia desde sempre que sua avó, "índia pura", fora apanhada no mato, "na boca de um cachorro", repetindo para mim uma história que faz parte da infância de tantos brasileiros. A confirmar minha brasilidade - seja lá o que isso for. Como disse meu irmão, Tony, ela tinha o dom de transformar as manchetes do dia em poesia. Autodidata. Lia ainda uns cordéis com uma paixão visceral. Quase que os cantava. Na semana em que voltei a viver aqui Léo me chamou para ir visitá-la lá no Gavião, a região da zona rural onde ela vivia e onde eu passava minhas férias de verão, sem energia elétrica, a escutá-la sob a exígua luz de um candeeiro. Hoje já há eletricidade - mas não havia mais seu esposo, meu avô Zé Lopes, morto anos atrás. Nem há mais ela. O caminho para lá continua o mesmo, estrada de terra. Em cada passo, uma lembrança que nem julgava mais guardar em mim. Antes de chegar lá, uma cruz, a marcar o lugar onde tombou morto Tio Zezé, dormindo para sempre no sereno, numa última desobediência à mãe. No velório de Dinda, na casa de uma tia minha, aqui em Maracás, netos e bisnetos da quase nonagenária senhora. Havia algum choro. Mas a sensação geral era que ela morreu depois de uma longa vida, onde sempre estava a sorrir. Nunca a vi chorar. O que não apaga seus prováveis choros. Mas, sim, ela era uma pessoa alegre. Só me lembro dela sorrindo. Especialmente quando tentava lembrar o nome dos netos. Dizia os nomes de quase todos os meus primos e irmãos antes de chegar ao meu. Que para ela era "Rege", ao invés de Jerry. Quando me chamava pela forma correta pensava ter se enganado. E corrigia: "Rege".
E agora, vivendo com Léo, conheci sua namorada, Nina - nome da gata que um dia presenteei e que hoje me faz tanta falta. A gata, quero dizer. E conheci também Dona Matildes, sua sogra. Ela tem a idade que hoje teria minha mãe. Rimos todos os dias. Ontem até dançamos na festa. Sua preocupação para comigo, o perguntar se tomei café antes de sair, a quase imposição para repetir o prato, no almoço, os ouvidos e os conselhos... Tenho medo de chamá-la mãe. Mas é o que ela tem sido. E mais uma vez o cuidado. E já desde agora as saudades antecipadas para o tempo em que eu voltarei a viver só.
Já não confundo mais casa com família. Sei que podem ser coisas distintas. Já consigo ver principalmente a meus amigos, poucos, como minha família. E assim é que tenho família por terras distintas. A casa - ou o apartamento - vejo hoje como um investimento. Nada além. Suas paredes recém-erguidas ganharão novas memórias. Talvez facilitem algum esquecimento. Em junho próximo já quero estar vivendo lá. Tomando meus mates. E compartilhando-os com aqueles que se fazem em minha família.


















