quarta-feira, 4 de abril de 2012

Agradecimentos


Texto integrante da dissertação de mestrado "Memória e Retórica: 'Mouros' e 'Negros' na Crônica da Guiné (Século XV)", por mim defendida no Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade (UESB), em 14 de fevereiro de 2012, sob a orientação do Prof. Dr. Marcello Moreira.


“Geralmente somos ensinados da experiência que todo bem-fazer quer agradecimento”. É com tais palavras que Gomes Eanes de Zurara principia a sua Crônica da Guiné. Em concordância com elas agradeço, portanto, àqueles sem os quais não haveria dissertação alguma. Numa pesquisa que trata de lugares-comuns, não consegui escapar dos topoi próprios dos agradecimentos. Nem poderia. É que as relações humanas talvez não passem, no final das contas, de um amontoado de clichês. Atualizo-os, pois.

Agradeço ao Prof. Dr. Marcello Moreira, meu orientador, primeiramente por me apresentar a Zurara e à sua Crônica da Guiné, ciente que estava do meu desejo, desde a graduação, de tratar dos africanos. Sua ajuda foi ainda importantíssima no que diz respeito à instrumentalização necessária para lidar com uma tal fonte, ensinando-me a levar em consideração as poéticas e as retóricas, régua e compasso novos para mim. Obrigado por franquear-me sua biblioteca, seu tempo e seus conhecimentos, concedendo-me a autonomia necessária para caminhar com meus próprios passos. Se tive segurança para seguir adiante foi porque não deixei de me estribar em seus conselhos.

À Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por me liberar de minhas atividades docentes para dedicar-me integralmente aos estudos de pós-graduação.

À direção, estudantes, colegas e funcionários do Colégio Estadual Edilson Freire, em Maracás, Bahia, por entenderem a necessidade do meu afastamento. Especialmente aos professores Carlos Gomes e Jair Almeida pelo apoio, compreensão e confiança. Sem a ajuda de vocês tudo teria sido muito mais difícil.

À Coordenação de Aperfeiçomento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa concedida para que eu pudesse cursar, em missão de estudo, disciplinas na Universidad Nacional del Litoral (UNL), em Santa Fé, Argentina, entre junho e agosto de 2010.

À banca examinadora, pela disponibilidade em ler meu trabalho e pelos conselhos. Especialmente ao Prof. Dr. João Adolfo Hansen, leitura obrigatória em minhas peregrinações acadêmicas, e esta dissertação é uma prova disso.

À coordenação do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade, especialmente na pessoa da Profa. Dra. Maria da Conceição Fonseca-Silva, pelo apoio e confiança demonstrados. Agradeço ainda à professora Conceição por ouvir-me pacientemente em momentos difíceis, bem como por indicar-me caminhos que se mostraram valiosos para meu bem-estar e a concretização desta pesquisa.

Às professoras Dra. Lívia Diana Rocha Magalhães e Dra. Tânia Cristina Gusmão, por terem possibilitado minha ida à Argentina em missão de estudo.

Aos professores do mestrado. Ao Prof. Dr. Edson Farias, que através de sua disciplina encetou o debate a respeito desse objeto tão escorregadio que é a memória. À Profa. Dra. Lúcia Ricotta, por introduzir-me pelos labirintos de Borges. Ao Prof. Dr. Pedro Dolabela, por apresentar-me a Whitman, bem como por ter acompanhado este trabalho desde seus primeiros rabiscos, ainda na banca de qualificação.

Ao Prof. Dr. Hector Odetti, por me ter recebido e apresentado à cidade de Santa Fé e à UNL. Às professoras Dra. Elena Candiotti de De Zan e Ms. Marcela Manuele, da UNL, e à Profa. Dra. Susana Garcia Barros, da Universidad de La Coruña, Espanha, pela boa vontade com que me aceitaram entre seus alunos de pós-graduação e por terem sido pacientes para com minhas intervenções dificultadas pela barreira linguística, que se tornou bem menor, felizmente, nas últimas aulas. Así lo creo.

Devo agradecimentos ainda a outros argentinos que me marcaram de diferentes modos. Ao Prof. Gustavo Pereira, por permitir que eu falasse a seus alunos da Universidad Autónoma de Entre Ríos (UADER) sobre meu objeto de pesquisa. Daí nasceu uma amizade que rendeu um retorno à Argentina, desta vez como seu hóspede. Obrigado, Gus! A pessoas como Adrian Canteros, Dario Borda, Edu Mathieu, Jorge Rezett, Jose Cancellieri, Laura Eberlé, Letícia Montes, Luís Corvalán e Valentina Amado, que fizeram com que minha permanência nas cidades de Santa Fé e Paraná se tornasse ainda mais agradável. E muito especialmente a Francisco Russo, pelo carinho, atenção, cuidado e companheirismo; por ensinar-me pacientemente os primeiros passos na apreciação de un buen vino, bem como a ética e a etiqueta envolvidas no preparo e no compartilhamento de un buen mate. E foi com litros de mate, afinal, que esta dissertação foi escrita.

Aos colegas do mestrado, pelas conversas, risos, desabafos e discussões ao longo dos dois últimos anos: Antônio Joaquim, Joaquim Antônio, Luís, Fabíola e Glauber. A Cecília, pelo carinho mútuo e inexplicável. A Roney, por ensinar a fazer a viagem valer a pena, colega do desbravamento de Buenos Aires e de Bariloche.

A Luisa, a princípio colega e hoje amiga das mais queridas. Pelo ombro, pelos ouvidos, pela paciência. Por apresentar-me a Eddie e a Otto, que embalaram minhas caminhadas por la Costanera. Por entender-me e me ajudar a também me entender.

A todos os amigos e colegas que, através de um telefonema, uma conversa via internet, uma visita ou uma rodada de cerveja me proporcionaram a paz necessária para ler, pensar, reler, considerar novamente, escrever e reescrever. Nomeio-os: Abenildo Galindo, Achiles Neto, Adauto Viana, Alessandra Oliveira, Alexandre Alves, Ana Paula Soledade, André Sá, Beto Júnior, Bia Gusmão, Bia Lima, Carla Rocha, Clara Carolina, Edigar Limeira, Eduardo Ferreira, Eronildes Teixeira, Fá Nascimento, Fábio Pimentel, Fernando de Oxum, Flávio Guimarães, Gabriel Rafael, Hortênsia Nascimento, Jacson Neri, Jean Lima, Joab Cruz, João Reis, Jules Ramon, Jussara Zaffalon, Karine Rebouças, Leandro Aquino, Meg Sousa, Milena Pereira, Neila Portela, Nênia Blue, Renê Chiquetti, Sérgio Guimarães, Thiago Alves, Thiago e Tibério Menezes, Thiago Cajado, Vítor Sá e Wilson Doll. Especialmente a Poltergeist – assim ele prefere ser chamado –, pela generosidade em ofertar seus conhecimentos profissionais para elaborar as figuras que fazem parte desta dissertação.

A Leniram Rocha, por me ajudar a perceber que o “não” é “não”, mas que também o “sim” é “sim”. E por estar presente nos momentos essenciais de minha vida.

Aos amigos que me abriram suas portas por onde passei para apresentar os primeiros resultados de minha pesquisa: Gabriel Filipe, Edinha, Kadu e Tatia Silva, em Brasília; Franck Santos, em São Luís do Maranhão; Lullão e Débora Santiago, em Buenos Aires; e Deborah Dornellas de Xangô, em São Paulo, a quem sou grato ainda pela revisão do abstract.

Ao cantor uruguaio Jorge Drexler, pela gentileza em permitir expressamente a utilização de um trecho de uma sua cantiga como epígrafe do meu trabalho.

Ao Prof. Dr. Julio Santana Braga de Iansã, meu babalorixá, exemplo para mim de intelectual, sacerdote e ser humano. Modu pé, meu pai, por estar sempre disponível quando precisei do senhor, e principalmente por me ter oferecido seus conselhos, o melhor ebó que há. Neste sentido vão também meus agradecimentos ao Prof. Dr. Robson Cruz de Omolu, meu babaquequerê.

À minha família: meus irmãos Tony, Alex, Jéssica e Juraci. A própria existência de vocês justifica e requer meu agradecimento. A Alex especialmente, pela companhia nos últimos meses.

Aos orixás. Pela saúde, pela força, pela esperança. De Exu a Oxalá. Mas muito especialmente a Iansã, de cuja barra da saia não quero soltar nunca; e a Oxóssi e Xangô, meus orixás de cabeça. Obrigado ainda por não se importarem sequer com minhas dúvidas. Eu não acreditaria em deuses que se ofendessem por eu não acreditar neles.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Casa


"And this is the house where I could be unknown, be alone now..."

Deve haver algo de estranhamente poético no fato de eu estar vivendo os últimos meses em Maracás, na Rua do Cuscuz. Pela rua e pela cidade. Cidade de meus vivos e de meus mortos. Rua dos negros da cidade, que foi meu objeto de pesquisa na graduação em História. Releio hoje aquelas páginas que me introduziram no mundo acadêmico e acho graça na paixão e na inocência com que escrevia. Hoje estou mais domado. Anos atrás, quando vivia ainda em Maracás e tinha uma família convencional, era costume mudarmos sempre de casa. A nossa, própria, ficava em outra cidade, alugada a outros. A casa em Maracás mudava, mas a família permanecia. Meus pais chegaram a cogitar alugar uma casa na Rua do Cuscuz, e verde ainda em meus preconceitos temi ter de dizer que morava na Rua do Cuscuz. Na rua dos negros. Não foi daquela vez. Fomos para outros lugares de Maracás. A família, a convencional, essa acabou. Morreram meus pais, separei-me de meus irmãos, multiplicaram-se as casas onde vivi. E venho aprendendo a ser minha própria família.

Em Vitória da Conquista, para onde fui cursar faculdade e procurar um rumo para a vida, vivi em muitas casas também. Repúblicas que geralmente começavam democráticas e não raro degringolavam em anarquia - no pior sentido da palavra. Nas férias e nos fins-de-semana prolongados os colegas voltavam para suas casas, para suas famílias, e eu sentia o gosto estranho de dizer que ali, a república, muitas vezes uma terra de ninguém, era a minha casa. Mas isso nem sempre me incomodava. Eu aproveitava o espaço vazio para preenchê-lo com a companhia de quem me introduzia por novos caminhos, e que eu julgava que poderia vir a ser minha família. Ou era. Não sei.

Veio a crise na Argentina, em 2001. Os panelaços. O medo de que aquilo tudo alcançasse o Brasil. E então, com o dinheiro ganho pela morte de meu pai, resolvi comprar a minha casa. Que planejei desde o começo que não seria só minha. Brilho em olhos alheios foram definitivos para efetuar a compra. E por lá vivi durante dez anos. Lá eu vi deuses e demônios nascerem e morrerem. Lá eu pensei que finalmente voltaria a ter uma família. Até que a outra parte me lembrou que não éramos uma família. Ou ao menos não éramos mais. Sócios? Foi das coisas mais verdadeiras e tristes que ouvi em toda a minha vida. Como cantou Drexler: "El velo semitransparente del desasosiego un dia se vino a instalar entre el mundo y mis ojos. Yo estaba empeñado en no ver lo que ví, pero a veces la vida es más compleja de lo que parece".

E assim é que a casa se tornou novamente vazia e grande demais. Havia muita memória impregnada em suas paredes. Vendê-la não foi apenas uma tentativa de esquecimento, mas a aceitação e a concretização das mudanças. Saí de lá e deixei o pé-de-aroeira intacto, como prometi - a despeito de qualquer divindade que pudesse habitar ali ou não. A goiabeira, que num dia de insensatez cortei todos os galhos, já floria quando entreguei as chaves ao novo dono. Que não poupou a aroeira. Mas disse que deixaria o pé-de-goiaba exatamente onde estava, de pé. E estava em flor. Todo o mal que lhe fiz não foi, afinal, irreversível.

Até que o apartamento novo que comprei seja entregue, estou vivendo na cidade onde trabalho, Maracás. Retornar a Vitória da Conquista é uma questão de tempo, e mesmo isso deverá ser temporário. Voltar a viver em Maracás não é de forma alguma um peso para mim. Gosto da cidade. Do seu frio quase palpável. De sua gente - que é a minha gente, afinal. E dentre as possibilidades que tinha de viver com algum dos parentes, surgiu essa, de morar com meu primo Léo. "Primo-irmão", como ele faz questão de dizer. Essa coisa de proximidade, de alguém dizer "ele é dos meus", me fazia muita falta. Como ontem, quando depois de uma festa - e já estávamos todos "altos" -, outro primo, Sérgio, - "primo-irmão", aliás - me foi buscar, ao lembrar-se de que eu ainda estava lá. "Como assim, Jerry ainda está lá?". E voltou, "em cima do rastro", como se diz por cá. Assim, de forma gratuita. Um cuidado simples. Uma generosidade. Uma forma de se dizer e mostrar que se gosta.

Na semana passada morreu minha avó, Almerinda. Dona Meru, como era mais conhecida. Para mim simplesmente "Dinda". Foi assim que aprendi a chamá-la. Uma índia, ela. Ela que me dizia desde sempre que sua avó, "índia pura", fora apanhada no mato, "na boca de um cachorro", repetindo para mim uma história que faz parte da infância de tantos brasileiros. A confirmar minha brasilidade - seja lá o que isso for. Como disse meu irmão, Tony, ela tinha o dom de transformar as manchetes do dia em poesia. Autodidata. Lia ainda uns cordéis com uma paixão visceral. Quase que os cantava. Na semana em que voltei a viver aqui Léo me chamou para ir visitá-la lá no Gavião, a região da zona rural onde ela vivia e onde eu passava minhas férias de verão, sem energia elétrica, a escutá-la sob a exígua luz de um candeeiro. Hoje já há eletricidade - mas não havia mais seu esposo, meu avô Zé Lopes, morto anos atrás. Nem há mais ela. O caminho para lá continua o mesmo, estrada de terra. Em cada passo, uma lembrança que nem julgava mais guardar em mim. Antes de chegar lá, uma cruz, a marcar o lugar onde tombou morto Tio Zezé, dormindo para sempre no sereno, numa última desobediência à mãe. No velório de Dinda, na casa de uma tia minha, aqui em Maracás, netos e bisnetos da quase nonagenária senhora. Havia algum choro. Mas a sensação geral era que ela morreu depois de uma longa vida, onde sempre estava a sorrir. Nunca a vi chorar. O que não apaga seus prováveis choros. Mas, sim, ela era uma pessoa alegre. Só me lembro dela sorrindo. Especialmente quando tentava lembrar o nome dos netos. Dizia os nomes de quase todos os meus primos e irmãos antes de chegar ao meu. Que para ela era "Rege", ao invés de Jerry. Quando me chamava pela forma correta pensava ter se enganado. E corrigia: "Rege".

E agora, vivendo com Léo, conheci sua namorada, Nina - nome da gata que um dia presenteei e que hoje me faz tanta falta. A gata, quero dizer. E conheci também Dona Matildes, sua sogra. Ela tem a idade que hoje teria minha mãe. Rimos todos os dias. Ontem até dançamos na festa. Sua preocupação para comigo, o perguntar se tomei café antes de sair, a quase imposição para repetir o prato, no almoço, os ouvidos e os conselhos... Tenho medo de chamá-la mãe. Mas é o que ela tem sido. E mais uma vez o cuidado. E já desde agora as saudades antecipadas para o tempo em que eu voltarei a viver só.

Já não confundo mais casa com família. Sei que podem ser coisas distintas. Já consigo ver principalmente a meus amigos, poucos, como minha família. E assim é que tenho família por terras distintas. A casa - ou o apartamento - vejo hoje como um investimento. Nada além. Suas paredes recém-erguidas ganharão novas memórias. Talvez facilitem algum esquecimento. Em junho próximo já quero estar vivendo lá. Tomando meus mates. E compartilhando-os com aqueles que se fazem em minha família.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um ebó para o esquecimento...



Alguns anos atrás, antes ainda de completar os sete anos de iniciação no candomblé e pagar a obrigação que me tornou ebômi, título de senioridade da religião, um amigo meu me perguntou se haveria algum ebó para o esquecimento. Ele trazia uma aflição no seu peito, e diante da certeza de que as coisas não mudariam, tentava esquecer o passado, sem sucesso. Eu lhe disse que ignorava a existência de um ebó para tal fim. Aos que desconhecem o significado da palavra, "ebó" vem do iorubá, e significa "presente", "oferenda". Através de alguns atos e palavras, bem como da manipulação de alguns elementos, oferece-se algo ao sagrado em troca de algum favor. E o que esse meu amigo queria era alcançar a graça de esquecer. Aquilo me deixou intrigado. Passei-lhe então o contato de meu babalorixá, e o que sucedeu dali por diante ficou entre os dois. Seria mesmo possível haver um ebó para o esquecimento?

No mestrado que estou concluindo, em "Memória: Linguagem e Sociedade", fizemos não poucas discussões acerca da memória e de sua contraparte necessária - o esquecimento. Aprendi, lendo as retóricas latinas, especialmente a Retórica a Herênio, de autoria desconhecida mas durante muito tempo atribuída a Cícero, que havia uma arte (ars em latim, correspondente à téchne dos gregos) de memorização. Tratava-se de uma mnemotécnica: um conjunto de procedimentos para ajudar a memória natural a se lembrar de todos os argumentos - e mesmo de todas as palavras! - de um discurso. E o filósofo francês Paul Ricoeur (2007), na sua soberba obra A Memória, a História, o Esquecimento, faz uma pergunta desconcertante: assim como havia uma arte da memória, seria possível também uma "arte do esquecimento"?

Há vários tipos de esquecimento. Há, por exemplo, o oficial, compulsório, promovido pelo Estado quando decreta a anistia. Todos os lados são perdoados, desde que todos esqueçam o passado. Trata-se de um esquecimento imposto, com o fim de promover a paz. Mas estaria a paz acima da justiça? Ricoeur diz que não. Há uma base ética para a memória e o esquecimento, e tal base tem de ser a justiça. Assim é que países como a África do Sul pós-apartheid e a Argentina pós-ditadura recusaram-se a esquecer, simplesmente. A justiça deveria ser feita. E se a Argentina vem julgando e mesmo decretando a prisão dos responsáveis pelo horror da ditadura, o Brasil, por outro lado, governado por uma mulher que foi ela mesma vítima dos militares, mostra-se resistente em aplicar a justiça através da memória. Ainda se quer esquecer. Mais até: ainda se impõe o esquecimento. Os arquivos da memória continuam inacessíveis à população brasileira.

Mas a mim me interessa mais, ao menos nessa altura de minha vida, o esquecimento enquanto fenômeno que se dá na mente do indivíduo. Não sob o viés das neurociências, que têm mapeado o cérebro humano e apontado em que região do mesmo a memória habita. A mim me interessa o esquecimento sob a abordagem fenomenológica. E se ao cabo da leitura de Ricoeur não tenho certezas, ao menos alguma coisa aprendi. Há, sim, um esquecimento benéfico. É o que o filósofo francês chama de "esquecimento de reserva". É impossível que lembremos de tudo. Para que nosso cérebro trabalhe, ele permite um esquecimento seletivo. Mas o que se esquece fica em algum lugar, e com algum esforço conseguimos recuperá-lo. Nesse caso o indivíduo quer lembrar, e sente uma espécie de prazer quando consegue fazê-lo. A lembrança sempre esteve ali, "à mão". Quando não se consegue lembrar após um esforço, o sentimento é de frustração, e a coisa a ser lembrada não está mais no "esquecimento de reserva", mas foi para sempre devorada pelo esquecimento total.

Não, Ricouer não poderia deixar de fazer alusão a "Funes, el Memorioso". Este foi o primeiro conto do escritor argentino Jorge Luis Borges que eu tive de ler. Numa tradução péssima, pescada na internet por um colega do mestrado. Lido uma hora antes da aula da Prof. Dra. Lúcia Ricotta. E ali se abriu um novo mundo para mim. Borges mostra de forma magistral como seria a vida de um homem - Ireneo Funes - que sofria da maldição de nunca esquecer de nada:
En efecto, Funes no sólo recordaba cada hoja de cada árbol de cada monte, sino cada una de las veces que la había percebido o imaginado. (...) Pensó que en la hora de la muerte no habría acabado aún de clasificar todos los recuerdos de la niñez (BORGES, 2009, p. 588-589).
A Ireneo Funes era incompreensível, segundo Borges, que uma só palavra, "cachorro", por exemplo, bastasse para designar todos os indivíduos da espécie, todas as suas raças, todos os seus tamanhos. Com sua memória prodigiosa que desconhecia o esquecimento, Funes inventava nomes diferentes para um mesmo cachorro visto às 3:14 de perfil e, no minuto seguinte, de frente. Não poderiam dois momentos distintos de uma coisa ser a mesma coisa. E em sua voracidade por tudo reter na mente, lhe custava dormir. "Dormir es destraerse del mundo" (BORGES, 2009, p. 589). E lhe custava pensar:
Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos (BORGES, 2009, p. 590).
Sua bênção, Borges! O esquecimento é necessário para que o próprio pensamento generalize e abstraia. Um homem improvável como Funes não poderia pensar, sintetizar, porque estaria muito ocupado em classificar as miríades de informações que são enviadas a cada segundo ao cérebro humano. E ele, o cérebro, sagazmente esquece, para poder pensar. Algumas coisas ele envia para o obscuro mundo do "esquecimento de reserva", e resgata quando necessário. O grosso, porém, esquece, simplesmente.

Não temos controle sobre todo o processo. E há coisas que, de fato, gostaríamos de esquecer. E se o homem conseguiu inventar uma arte da memória - repetimos com Ricoeur -, por que não seria capaz de criar também uma "arte do esquecimento"? Ou, no plano mágico, da fé, por que não poderia haver um "ebó para o esquecimento"?

E já que voltei a falar de ebó, ocorre-me que quando alguém se submete a fazer - ou "tirar" - um, tem alguns ingredientes passados em seu corpo, os quais são depositados aos seus pés. Findo o ritual, o sacerdote ou sacerdotisa ordena que a pessoa caminhe para a frente, para tomar um banho de ervas maceradas, "sem olhar para trás". Simbolicamente quer-se dizer com isso que o mal que a pessoa sofre deve ser "esquecido" pelo ato de não olhar para trás, para o passado. E aquele "carrego" - todos os elementos utilizados no ebó - deverá ser depositado em algum lugar por onde a pessoa nunca passe, para que ela não corra o risco de se "lembrar" do mal que, segundo a fé, fora "esquecido".

Tenho eu mesmo, como toda a gente, coisas que gostaria de esquecer. E recentemente essa necessidade tornou-se quase que insuportavelmente premente para mim. A psicanálise me foi de grande valia, ironicamente, por me ajudar a lembrar do que eu havia esquecido. E, mais importante, me ajudou a pensar - e aí se fez necessário esquecer de algumas coisas, segundo Borges - sobre o que eu gostaria de esquecer. Ao lado da psicanálise, os amigos foram muito importantes para que eu pudesse lidar com minhas memórias dolorosas. Entre eles, meu pai-de-santo. Toda vez que vou ao Axeloyá, o terreiro de candomblé que frequento, em Salvador, peço a meu pai meus quinze minutos de conversa a sós comigo. Não para aprender ebó e outros encantos da religião. Isso se consegue no dia-a-dia, observando, fazendo. O que eu queria era ouvir seus conselhos. Mas da última vez eu lhe perguntei, tímido - confesso - se ele havia ensinado àquele meu amigo do qual falei, no começo desse texto, o tal "ebó para o esquecimento". Ele sorriu, terno, amoroso, e me contou de suas próprias memórias tristes. De como elas foram necessárias para o seu crescimento. E de como se aprende a conviver com elas. E como elas fazem parte do que ele é. E de como minhas próprias memórias, sejam elas festivas ou funestas, são necessárias para mim.

O certo é que voltei para casa, em Vitória da Conquista, com minhas memórias ainda entaladas entre o peito e a garganta - mas não morariam elas na cabeça? Pareceu-me incompreensível o que meu pai dizia. Mas o tempo, esse deus que a tudo destrói, ajudou-me a ruminar a memória e o esquecimento. E o certo é que não fiz nenhum ebó. Algum tempo depois, vasculhando e-mails antigos, encontrei, meio por acaso, uma mensagem daquele mesmo amigo, dizendo o passo-a-passo do ebó que, sim, meu pai lhe ensinara. Ele não realizou o tal do ebó. Conseguiu conviver com suas memórias. E embora eu mesmo agora finalmente soubesse a "receita do esquecimento" segundo o candomblé, recusei-me a proferir palavras e realizar atos em tal intenção. É que pensar em esquecer é já uma lembrança.

Hoje a memória que latejava em meu corpo e em minha mente repousa no "esquecimento de reserva". Isso permite que eu viva e pense. Está "à mão". Às vezes ela vem, por si só, como afecção. Mas já não embaça a vista. Outras vezes sou eu mesmo quem vou em sua busca. E sinto uma espécie de satisfação por encontrá-la. Não, não quero me esquecer do que vivi. Se alguém um dia inventar um remédio que cause esquecimento, merecerá o Nobel. E a pena de morte.

Referências:
BORGES, Jorge Luis. Funes, el Memorioso. In: Obras Completas: 1923-1949. 4ª ed. Buenos Aires: Emecé, 2009, p. 583-590.

RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François [et al.]. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os balangandãs, a Bahia e o Bonfim



"Quem não tem balangandãs não vai no Bonfim". Assim cantou Caymmi. E o velho obá de Xangô continua a ter razão. Algum tempo atrás vi um intelectual negro da Bahia - não me lembro quem, e por isso mesmo não vou me arriscar a apontar nomes - falar na TV sobre o balangandã, esse amontoado de amuletos que as pretas baianas carregavam e ainda carregam no pescoço ou a tiracolo, e que reúne fetiches tão díspares quanto a figa romana e símbolos religiosos afro-brasileiros. E o que mais me chamou a atenção na sua fala foi justamente a informação de que o balangandã é sincrético por natureza, e que por isso mesmo agrega novos elementos que, segundo se crê, também estão imantados de poder de proteção. E assim é que nos últimos anos os balangandãs da Bahia têm aceitado conviver com o olho grego, por exemplo.  O mesmo ocorreu com os patuás, originalmente usados pelo povo mandinga, islamizado, com trechos do Alcorão. Uma vez na Bahia e em contato com os bantos, jejes e iorubás, os patuás que usavam magicamente a palavra de Alá passaram a ser porta-vozes também de inquices, voduns e orixás. E mandinga, nome de um povo, tornou-se sinônimo de magia. Isso é simplesmente fantástico, porque demonstra que os povos africanos que entraram na formação brasileira têm historicamente aceitado o novo não apenas no discurso, mas também na prática. E isso sem abrir mão de sua identidade.

E ontem finalmente fui ao Bonfim. No dia da Lavagem. Planejava assistir à missa ecumênica, contrito e incrédulo. Mas o engarrafamento provocado pelo próprio evento não permitiu que chegássemos a tempo. Eu e meu irmão e amigo André de Obaluaiê, que me tem hospedado por esses dias em sua casa. E Amanda, Jitomin, sua ekéji. Mas o bom de tudo é que fomos conversando, alegres, ao som dos Novos Baianos. Vestia eu minha camisa comprada especialmente para o evento, com estampa estilizada em mosaico de Xangô. Apropriada para a ocasião. Foi Xangô, afinal, quem carregou seu velho e alquebrado pai Oxalá nas costas. E a procissão desde a Conceição da Praia rumo ao Bonfim, para lavar suas escadarias, lembra um mito sobre isso.

Chegamos, finalmente, à Avenida do Contorno e fomos descendo a pé, rumo aos pés do Elevador Lacerda. A procissão acabava de sair. E o profano nos saltava aos olhos. Vendedores de cerveja por todos os lados. E quando nos confundimos finalmente com o cortejo pude observar o que se assemelha a um carnaval como não existe mais em Salvador. Vários blocos independentes, formados por amigos, mas sem cordas, num convite a todos para pular pelos oito quilômetros do percurso. Aqui uma bandinha com percussão e instrumentos de sopro tocando velhas marchinhas; acolá apenas a percussão dançante dos samba-reggaes da Bahia. Senti-me no carnaval do Recife, ao qual nunca fui - erro que também tenho de reparar o mais rapidamente possível. O fato é que nos juntávamos às mais diversas manifestações de canto e de dança. E tudo se cantava e dançava. Tema da Rede Globo para o carnaval? Tinha. Michel Teló e sua música onipresente? Também. Qual balangandã que a tudo o que lhe agrada agrega e aceita, conforme o gosto e o capricho popular, a procissão rumo ao Bonfim não tem preconceito. E assim é que populares e intelectuais cantavam e dançavam marchinhas carnavalescas, sambas clássicos e modernos, músicas da moda e, claro, os ijexás para Oxalá.

E depois de quase quinze anos eu voltava à Colina Sagrada, infestada de branco, onde fui pela vez primeira na semana seguinte à morte de meu pai, quando começou meu agnosticismo involuntário. E voltava, candomblecista e algo agnóstico, pouco preocupado se cantavam para o Nazareno ou para Orixalá. Ao primeiro não mais rendo louvor - embora a maior parte do povo do candomblé o faça. E ao segundo certamente não louvaria tomando cerveja. Fui pelo profano e pela fé alheia. Amarrei a fitinha do Bonfim no meu braço e na grade da igreja, cuja porta estava fechada. A Igreja Católica diz com isso que sincretismo tem limites - como o próprio balangandã, aliás.

A fita do Bonfim não valeu a Chico Buarque. Talvez me valha. O certo é que fiz do meu corpo balangandã, e aceitei essa materialização da baianidade - nunca mais escreverei essa palavra sem me lembrar de Luisa - em mim. Fiz os três pedidos, claro. E um deles foi o retorno - em menos de quinze anos, de preferência - ao Bonfim. A música da moda será outra, certamente. Talvez já ninguém se lembre de Michel Teló. Talvez o galego se estabeleça finalmente no balangandã baiano, qual olho grego. Não importa. A porta do Bonfim provavelmente continuará fechada. Mas o cárdio baiano permanecerá aberto ao novo. Deglutindo. Aglutinando.

sábado, 1 de outubro de 2011

Un buen mate

 Tomando mate com colegas na UNL - Santa Fe - Argentina

Manda a etiqueta do mate argentino que aquele que o preparou seja o primeiro a dele provar. É porque a primeira sorvida traz todo o amargor da bebida, e é uma cortesia tomar antes e poupar os outros amigos da roda dessa espécie de colostro. Mentira pura. Na verdade esse mito, creio, foi criado para justificar que a primeira bebida, em minha opinião a melhor, fique com quem preparou o mate. O que não deixa de ser uma cortesia dos outros amigos.

Um dos primeiros alheamentos que experimentei na Argentina diz respeito justamente a essa cascata de rituais que envolve tomar mate. Ensinou-me - ou ao menos tentou me ensinar - Francisco Russo, em madrugada fria. Chegou ele com sua parafernália: bolsa de couro apropriada para comportar a garrafa térmica, o recipiente com o mate (a folha) e a cumbuca (lá chamada simplesmente de "mate") e a bombilla. De antemão já sabia que não gostaria. Mas foi interessantíssimo observá-lo na execução do ritual: folhas de mate a três quartos da cumbuca; tapa-se com uma das mãos e se agita a cumbuca para retirar o excesso de folha em pó, que poderia tapar a bombilla; bate-se um pouco num dos cantos, para que as folhas depositadas fiquem na diagonal; um pouco de água morna no fundo; põe-se a bombilla e ¡listo!, eis que se pode despejar a água aquecida num ritual à parte, já que não pode ferver, e o ideal é que seja tirada do fogo quando as primeiras bolhas se soltam do fundo da panela.

Mas o ritual não acaba aí. Como disse acima, é hora do cebador, aquele que preparou o mate, prová-lo em primeira mão. A mim me lembra o ritual de provar do vinho - outra coisa aprendida com Francisco Russo, esse chef que tive o prazer de conhecer e me ensinou uns tantos bons modos. Quem preparou o mate deve prová-lo e só depois passar adiante. Deve guardar para si o amargor concentrado, e dividir com os amigos uma bebida mais "domesticada". Diz-se em Santa Fe que alguém só é considerado adulto quando já toma do mate sem precisar adicionar açúcar. É que os bebês, para serem iniciados nesse estranho ritual, tomam-no adoçado nas suas mamadeiras.

Dividir. Enquanto preparava o mate, Francisco Russo me ensinava que "el mate es el símbolo del compartir". É uma atividade social. O que já vinha comprovando na prática, antes de conhecer Francisco Russo. Quando caminhava pela Costanera, avenida em bairro nobre de Santa Fe, onde os moradores vão caminhar, à beira da Lagoa Setúbal, ou simplesmente interagir. Via por lá grupos de pessoas sentadas em rodas, tomando mate: famílias, colegas de escola, amigos, casais de namorados, reproduzindo o ritual de compartilhar do mate. E também nas aulas lá na Universidad Nacional del Litoral (UNL), quando nossos colegas preparavam o mate em meio à aula, e passavam aos demais, inclusive aos professores. Foi lá, aliás, que experimentei o mate pela primeira vez, e cometi as primeiras gafes: toquei na bombilla e dei apenas uns dois goles, sem tomar de todo o conteúdo. Discretos e condescendentes, meus colegas não me apontaram tais quebras de etiqueta. Coisa que Francisco Russo fez depois, amavelmente, rindo de minha falta de jeito.

Toma-se todo o conteúdo do mate. Devolve-se a cumbuca ao cebador, que renova a água quente, e passa ao próximo da roda. E assim sucessivamente. Outra gafe comum dos brasileiros - ao menos dos não acostumados ao mate - é, ao devolverem a cumbuca, agradecer. Não, não se diz obrigado - ou ¡gracias! - até que se acabe o encontro. Não é necessário agradecer a cada vez que se toma, sob o risco de ser mal-interpretado como alguém que não quer mais tomar do mate com os amigos. Afinal, ele nem acabou ainda...

Confesso que só vim a apreciar realmente o mate depois de voltar ao Brasil. Mas no fim do terceiro mês em Santa Fe seu gosto já não me era tão estranho. E na última disciplina, com a professora galega que também não entendia como se gostava do mate, eu já tomava sem estranhar o seu amargor. E recordo com saudade do domingo já próximo de meu retorno em que, além de Francisco Russo, tinha por companhia Luís Corvalán para uma roda de mate. E qual não foi minha surpresa ao ver que, sim, lá existe até máquina que vende água na temperatura ideal pelo preço módico de 1 peso o litro! Domingo frio, com feira hippie e sándwich del viejo. Maldito o ladrão que levou minha máquina com aquelas fotos.

Compro na rodoviária de Santa Fe, já no dia de vir embora, minha cumbuca e minha bombilla. Já sabia que não seria apenas um souvenir. Mas inadverditamente não trouxe da yerba argentina, pensando que aqui encontraria. Não, não se encontra. Depois de voltar só encontrei o chimarrão, e tentei em vão tomar dele. É que o chimarrão é preparado de forma distinta. A erva é a mesma (Ilex paraguariensis), mas a forma de processá-la, não. Os brasileiros do sul tomam-na crua e quase em pó, motivo pelo qual minha bombilla sempre se tapava, e eu inutilmente não entendia o porquê. Ao voltar à Argentina nesse ano cuidei em observar que os argentinos tomam da erva estacionada, ou seja, seca, quase que torrada, ao sol ou industrialmente; e acresce o fato de que as folhas são trituradas, e não moídas, e vêm inclusive com pedaços de palo, ou seja, caule. Claro que trouxe ao menos 3kg dessa vez. E um deles já foi embora!

O triste é tomar do mate só. A quem o ofertei por aqui não lhe agradou. E desde então, nesses frios e cinzas dias de Vitória da Conquista, tomo diariamente ao menos um litro de mate. Prepará-lo é algo que faço com gosto e calma. Gosto de sentir seu cheiro. Gosto da primeira sorvida, mais selvagem. Ativa-me as memórias olfativa e gustativa de noites não tão frias na Argentina. E assim, entre uma sorvida e outra, venho navegando na internet e lendo meus livros.

Aguardo a chegada de Teobaldo, que comigo foi à Argentina dessa vez e também trouxe sua cumbuca e sua bombilla, além de alguma yerba. Disse-me que não tem tomado mate lá em Recife por conta do calor. Bem, para variar hoje é um dia cinza em Vitória da Conquista. Espero que o frio fora de estação continue por alguns dias, para que eu tenha finalmente uma companhia para compartir dos rituais do mate. Sem açúcar,  que não somos mais meninos, hein?


Mate em tempos de globalização

domingo, 25 de setembro de 2011

Felicidade pelo retrovisor



Há gente ocupada demais - e aí estão o msn, o orkut e o facebook que não me deixam mentir - em ser feliz. Não sobra a essas pessoas tempo para mais nada, confessam, algo entre o constrangido e o desesperado. Da obrigação de ser feliz. Não quero, porém, falar disso. A conceder o benefício da dúvida a tais alardeadores da felicidade própria, pergunto-me: como podem ter certeza de que são felizes?

Meu pai(-de-santo), Julio Braga, anteontem nos falava - a mim e a outros irmãos-de-santo - sobre como a felicidade não é. Era. Ou, com um pouco de boa vontade de minha parte, tem sido. Dizia ele que, mexendo em coisas antigas, encontrou algumas fotos suas de fins dos anos 60. Não sabia ele precisar se a foto fora tirada no Senegal, no então Daomé (hoje Benim) ou no Brasil. Ao fundo só havia o mar. E, em primeiro plano, ele, que nem trintado ainda havia. A foto era borrada. Disse-nos meu pai que se contemplasse a foto naquele ano, e nos seguintes, somente lhe pareceria mais uma recordação de suas viagens à África - sim, ele recordou, a foto havia sido tirada lá. Hoje, porém, na altura em que ele se aproxima de completar setenta anos, aquela foto lhe mostrava que, sim, ele era feliz ali. A percepção, entretanto, só lhe ocorria agora. Ou, em outras palavras, não é apenas a vingança um prato que se come frio. A felicidade também o é.

Foi então que ele falou sobre o que me motiva a escrever hoje: a felicidade é um "foi", ou "tem sido", que só se percebe - desculpem-me a redundância -  a posteriori. Somente podemos julgar com segurança a respeito da felicidade em nossas vidas quando nos afastamos daquele momento, e o contemplamos com os olhos de hoje. Não, ele não quis dizer que só quando estamos tristes é que podemos medir a felicidade. A tristeza é também paixão, e atrapalharia um bom juízo - como a euforia que apressadamente tomamos por felicidade no momento em que a experimentamos. Quando se é feliz, é-se de forma inconsciente. A consciência da felicidade é já um afastamento dela, um alheamento, e, portanto, é sair dela. Quando já não estamos mais nela é que podemos discernir que - e o que - ela foi.

Isso me traz à mente Maria Bethânia recitando Bernardo Soares, heterônimo não tão conhecido de Fernando Pessoa. Reproduzo o texto original que foi adaptado por Bethânia para seu espetáculo "Imitação da Vida":

Lembro-me de repente de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a vida. Via a manhã, e tinha alegria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas.

Tanto para meu pai quanto para o poeta a felicidade só foi percebida quando o tempo passou. Ela foi vista em retrospecto. Já não é mais. Vivida de forma inconsciente, a consciência dela - da felicidade - deriva do movimento para fora ocasionado pelo tempo, esse que a tudo destrói, conforme digressão já feita por aqui. Bernardo Soares só fica triste após perceber que já não é feliz. Mas antes da percepção a constatação - ele foi feliz.

Sim, ronda todo esse texto minha preocupação acadêmica desde o ano passado - a memória. E permitam-me a costura, mas depois de invocar meu pai-de-santo e um prosador poeta, chamo agora Pierre Nora, historiador francês que discorre sobre as relações entre memória e história. Para Nora a memória já não existe em nossos dias. Ela foi substituída pela consciência da memória - ou seja, a história. As sociedades que viviam na memória faziam-no de forma inconsciente, acrítica. Viviam, simplesmente, em continuidade com seu passado mitológico do qual não se afastavam nunca; pelo contrário, o presente era uma constante atualização de um passado sacro. Entregues à "dialética da lembrança e do esquecimento", as pessoas nunca problematizavam seu presente - e muito menos seu passado, do qual não se consideravam apartadas. Com o surgimento da história - ou da historiografia para ser mais preciso, que é, segundo Nora, uma história consciente de si, ou em segundo grau - todo o passado é problematizado. Iconoclasta que é, a história quer desconstruir os mitos e as origens, e não poupa nem a si mesma. O historiador só pode dizer às pessoas que o passado não era bem assim porque ele se encontra alheio à memória; ele cinde a continuidade entre passado e presente. A história, ela mesma uma musa para os gregos antigos, personificada por Clio, comete pois um crime quase que universal: mata sua mãe, a memória, ou Mnemosine.

Não quero levar à frente a discussão de Pierre Nora. Para meu propósito chega a referência acima às suas ideias. É provável que meu improvável leitor já tenha estabelecido a ligação que se deu em minha mente: a memória e o esquecimento estão para a felicidade assim como a história está para a percepção dessa felicidade. É-se feliz, inconscientemente, como quando as pessoas viviam imersas no mundo da memória atualizadora do passado e não consciente de si; percebe-se que se foi feliz quando essa felicidade já não é, como quando a história diz que já não há mais memória - ou felicidade, como saber? E assim como Bernardo Soares, que se vê a si criança por trás de seus olhos adultos - e é nesse momento que ele sabe que foi feliz - fica triste só após essa percepção, a história, que nada tem a oferecer após destruir o mundo mítico da memória, não pode ofertar nada que não seja uma melancolia, essa tristeza dos que pensam. A percepção, porém, não é triste em si mesma. É quase que um susto. Como encontrar uma velha fotografia. E é só após essa percepção inesperada que se sabe que se foi feliz. O que não quer dizer que não se seja feliz no momento da percepção. Aquela felicidade percebida fortuitamente é que não existe mais. Talvez até se seja feliz agora - mas isso só poderá ser percebido depois, como que num novo balanço não planejado.

E Bethânia, qual musa, sopra-me aos ouvidos toda essa digressão acima numa frasezinha de Guimarães Rosa: "Felicidade se acha é em horinhas de descuido". É no descuido e na inconsciência que somos felizes. Quando cuidamos da felicidade é porque ela já não existe.

domingo, 14 de agosto de 2011

♪♫ Vuelvo al Sur... ♪♫



Uma semana atrás e eu deixava mais uma vez Buenos Aires. Agora por conta própria. Depois de um retorno para amarrar pontas soltas. E deixar novas. Para poder voltar novamente.

Sempre pensei a Argentina como um lugar para se conhecer no inverno. Estranho quando me dizem que lá faz muito calor também. Daí o estranhamento de chegar lá, em fins de julho, e encontrar um frio tolerável. Um frio que se esquecia com alguns minutos de caminhada. Tirar o agasalho por caminhar um pouco rápido me parecia tão inusitado em Buenos Aires... Ainda mais após reportagens e reclames de amigos argentinos sobre a onda de frio insuportável. Mas meu retorno à Argentina não poderia ser o mesmo. Tampouco o frio. "Al lugar donde fuiste feliz núnca deberías tratar de volver", me lembraria poucos dias depois, em Santa Fé, Francisco Russo. Desobedeço ostensivamente, porque volto. Não volto à felicidade que de fato vivi. É impossível, bem o sei. Volto ao lugar em busca de novas felicidades. E tento reconfortar-me dizendo a mim mesmo que tampouco se volta à tristeza. A menos que se agarre a ela. Mas aí já não seria retorno, e sim teimosia.

A chegada dessa vez a Buenos Aires ficará para sempre marcada em minha mente. No ano passado foi de avião, às quatro da tarde - hora perfeita, hora em que quero morrer. Ver de cima o barrento Rio da Prata e os quadrados perfeitos, ricos, medianos e pobres, que compõem a cidade, num verde amarelado totalmente alheio ao Brasil, foi, sim, lindo. Mas desta vez, por obra de Iansã, que resolveu mostrar-me que ela baila onde quer, inclusive nos céus de Montevideo, o avião não levantou vôo, e a companhia aérea se viu obrigada a nos colocar num ônibus que nos levou até Colónia del Sacramento, onde cruzaríamos o Rio da Prata. Passar pela capital uruguaia à noite foi como uma promessa não cumprida. Como também o foi entrar no navio. Afora o frio extremo, lá fora tudo era muito igual. Águas pretas do Prata. Distinto foi chegar a Buenos Aires, com o sol nascendo, e o rio, de fato, prata. Epifania.

Depois... Bem, depois permitir-se andar, meio que a esmo, pelas ruas portenhas, com Teobaldo. Tradicionais roteiros. E para além deles. E o cumprimento da promessa que fiz a mim mesmo, de passar uma tarde na Recoleta. Não apenas pela Faculdade de Direito. Tampouco somente pela flor metálica. Pela andança. E pela tarde. E pelo almoço que nos permitimos, caro mesmo para quem o câmbio lhe favorece. E o sol, que nessa época do ano nunca nos passa pela moleira, sempre com seu ar de quatro da tarde. Nem precisava de foto.

E depois Paraná. A capital de Entre Ríos que eu havia desprezado pelos meses que vivi em Santa Fé, e que só descobri na véspera de vir embora. Reencontrar o amigo e anfitrião Gustavo. Falar de Zurara e de Gregório de Matos. Explicar o que é "porra" para os ouvintes, até o ponto de Teobaldo, constrangido, dizer que já estava de bom tamanho. E depois, novamente, a orla. O Rio Paraná, que nasce aqui no Brasil e que lá adiante se junta com outro rio brasileiro, o Uruguai, e numa pororoca sulista forma o da Prata. A orla de Paraná é belíssima. Ali reencontro o frio que fui buscar. E o show de tango, no Teatro Municipal. Com os ouvidos e os olhos sempre no bandoneón. E a emoção de depois de tanto alumbramento ouvir o bis com "Resistiré", que não é tango, mas vem de Almodóvar, igual e poeticamente dramático.

Adio, mas chega a hora de finalmente não apenas rever, mas caminhar por Santa Fé. Voltar com as meninas da nova turma do mestrado em Memória ao restaurante onde me despedi de Luísa é amarrar uma ponta solta. Ver a Ponte Colgante; a Laguna Setúbal; a UNL; a Costanera. Memória acústica é uma miséria, porque só me sopram aos ouvidos cantores pernambucanos, ouvidos sempre pela Costanera, e sempre às quatro da tarde.

E seguimos para Rosário. Refaço com Teobaldo o roteiro que Francisco Russo me ensinou no último agosto. Outra vez o mesmo Rio Paraná. Mas noutra orla. E em nossos colóquios acerca da memória, da história e do esquecimento, passeamos por lugares de memória. E de esquecimento. Bandeiras argentinas flamejando por toda a parte. Casa onde nasceu Che Guevara. Só a fachada, que a cidade corre e não há museus ou sequer lojas de souvenir sobre o rosarino mais famoso. Uma foto decepcionada e ¡adelante! Calle Córdoba. Um capuccino. Não é o mesmo de Salvador, lembra-me Teobaldo, que vê ao menos essa qualidade inusitada na capital baiana.

E finalmente, com mais calma, onde tudo começou. Santa Fé. Novamente o aniversário de Luís Corvalán. Menos amigos, percebo. Ou talvez desta vez apenas os amigos? Lá estou. Recebido por Francisco Russo. Um cavalheiro. Trocamos nossos presentes. Dou-lhe, chef que ele é, um livro sobre as feiras, mercados e iguarias do Brasil. Ele me presenteia com algo que me protegerá do frio. E nem estou a falar do abraço amigo. San Patrício, outro bar retrô de Santa Fé que desconhecia. Conversas. Profundas. Surpresas. Francisco lembra-me o que é bom de se lembrar, e me espanta. Sim, ele é um cavalheiro. Definitivamente.

E então Teobaldo tem de falar sobre Antônio Conselheiro e Canudos. E ganhamos livros sobre a ditadura argentina, que tanto nos instiga. E fazemos amizade com Jorge, o mais malandro dos argentinos. Histórias do tempo de Che. E retornos. E saímos de lá, com mais amigos. Tanto que somos hospedados por um casal simpaticíssimo em Buenos Aires. E, sim, jogo mais uma vez os búzios em terras do sul. Em Paraná já tinha visto Oxalá e seu opaxorô sobre a cabeça de Téo; e duas espadas, de Oxaguiã e de Oyá, brigando pelo ori de Gustavo. E me despeço de Buenos Aires vendo Omolu e Oyá - que já me havia recepcionado em Montevideo - sobre as cabeças de meus anfitriões e amigos.

E às quatro da tarde estou de volta a São Paulo. Não vale a pena falar do assalto no metrô de Buenos Aires. Fiquemos aqui, nas quatro da tarde, em Guarulhos. Na mala meu gorro argentino feito na China, e o cachecol que trouxe para Luísa, argentino, feito na Índia. E três quilos da legítima erva-mate feita segundo o gosto argentino. Estacionada. Sorvida agora, enquanto escrevo. Ao som de um tango. Triste, como convém a um bom tango. Não é assim também com o samba?

domingo, 24 de julho de 2011

São Paulo me engana


Do alto da torre do Banespa, a babilônica São Paulo corria sob os meus pés. Ao menos essa é a ilusão que me permito ter. Com sua indefectível garoa, desnudava-se e se ofertava por preço módico em toda sua concretude cinza, implacável, para minha garganta.

São Paulo me decepcionou. Onde estão a pressa e a apatia?

São Paulo é para mim toda acolhimento. Na casa de minha anfitriã, Deborah, que me abriu suas portas e seu cárdio. Colóquios sobre congados, maracatus, candomblés e águas lusas. No abraço do Rogério Calaça, que a essa hora perambula por improváveis ruas paulistanas, tentando inutilmente se fazer esquecido. No dia inteiro com o Shurelambers, da cracolândia ao mosteiro. Cuidou tão bem de mim o Shure na segunda-feira pelas encruzilhadas por onde o Compadre vadia... Presentou-me com pão e livro, alimentos para o corpo e para a alma. Na imponência do quase abandono da Usp, onde me ouviram por um tanto. No retorno, com Teobaldo e Quindim, ao Mercado Municipal, onde brindamos com chopes de colarinhos largos e largos sanduíches de mortadela. Nos confrontos com meu passado cristão, num encontro apóstata, e com meu presente candomblecista, em alegre jantar na casa da Valéria de Exu, levado quase que pela mão pelo Fernando de Oxum.

São Paulo onde joguei os búzios pela primeira vez e onde, do décimo quinto andar, gritou-me aos olhos o ilá de Xangô sobre a cabeça da Deborah. Deborah de Xangô - não sem as ciumentas bênçãos de Oxum e de Nanã.

São Paulo que me chama para doutorar-me na vida.

Do Paulo apóstolo, homofóbico e misógino nada quero. Mas de sua cidade, plural, tudo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O tempo não cura nada.



Sempre me disseram - e nas últimas semanas isso quase se tornou um mantra - que "o tempo cura tudo". O que é uma mentira escandalosa. Em sentido absoluto é, sim, uma mentira. Dá a falsa impressão de que há uma entidade pessoal, chamada tempo, que se ocupa de nossas tristezas, angústias, frustrações e coisas que tais. Não há. Definitivamente não há. O que pode haver é um fragmento de verdade nisso tudo. O tempo não cura nada porque, em última instância, ele destrói tudo. Tudo. Como é dito no começo e no fim - e quem já assistiu sabe que eu poderia dizer isso na ordem inversa - do filme "Irreversível", de Gaspar Noe: "o tempo destrói tudo". Esse é o absoluto. A cura - ou o que chamamos de cura - nada mais é que um recorte no próprio tempo da sua ação destruidora. Explico: a sensação de cura que ocasionalmente experimentamos é um fragmento de um todo maior. Nesse fragmento, o tempo e sua voracidade apagaram o que havia de dor e de desespero. Ótimo. Que se aproveite desse fragmento. Mas o tempo não pára aí. Sendo autofágico, ele não respeita nem a si mesmo. Por que então respeitaria a suposta cura que nos trouxe? Ele prossegue, cego, devorando a "cura". E as pessoas que ilusoriamente experimentam a "cura". E os sentidos que damos a tudo o que se chama de "cura". Para onde foi, afinal, o conforto da "cura"?

Gaspar Noe preocupa-se, no filme que citei acima, com a irreversibilidade do tempo e nossa cegueira quanto a isso. A cegueira que me incomoda é outra. É a da inexorabilidade do tempo. Não penso que a história - ou as histórias, as comezinhas, as nossas - tenha um sentido, uma direção. Não, não sou teleológico. Acredito no caos. Talvez eu seja escatológico, mas apenas no sentido de que tudo caminha para uma consumação final. Inclusive o próprio tempo, que não existindo para além do homem, se extinguirá quando o último de nós desaparecer. Porque vamos desaparecer, não sejamos pedantes ao ponto de pensar que não. Assim, não somos filhos de Cronos, que nos devora. Somos seus pais. Mas ainda assim ele nos devora. O tempo, esse parricida, destrói tudo.

Das pontuações, quando aprendia os rudimentos da gramática e da ortografia, a que mais me fascinava eram as reticências. Sempre achei o ponto final algo brusco. As reticências, por seu lado, têm por missão deixar em aberto a possibilidade de prosseguimento. Ou ao menos uma intenção de prosseguir. O ponto final sempre me pareceu cru. Às vezes almejado, quando a leitura era enfadonha. Outras vezes excomungado, quando me perdia pelas páginas sem me preocupar em contar quantas restavam; angustiava-me apenas a aproximação do inexorável ponto final. Mas ele chega. Se não o pusermos, alguém o porá por nós. E ainda que intimamente queiramos o agnosticismo do reticente, impera, no final, o incrédulo ponto. Final.

Penso que é, sim, sabedoria usar a destrutibilidade do tempo a nosso favor. Que chamem a isso de cura pouco me importa. Mas é loucura pensar que o tempo está necessariamente trabalhando por nós. Como é também parvoíce sem tamanho esquecer que o tempo seguirá a tudo destruindo. E morrerá conosco. Como um vírus, que ao matar seu hospedeiro mata a si mesmo. Não sejamos reticentes quanto a isso. Sem medos do ponto final.

Ponto final.

domingo, 12 de junho de 2011

A Estranha Metáfora do "Bom Pastor"


Jesus Cristo nos é apresentado como o "bom pastor", que é capaz de deixar 99 ovelhas para ir atrás da única que se desgarrou. Isso, entretanto, não é um precedente bíblico. Houve outros, antes dele, que foram pintados como "bons pastores", como Moisés ou o rei Davi.

Mas uma metáfora como essa é realmente amorosa? Segundo João Ubaldo Ribeiro, tal mitologia do "bom pastor", cujo primeiro exemplo é Abel, em detrimento do "agricultor", representado por seu irmão Caim, o malvado, tem uma explicação. Uma das principais atividades dos hebreus era o pastoreio, ficando a agricultura em segundo lugar. Assim, os patriarcas pastores criaram uma mitologia que exalta a figura dos pastores e marginaliza a dos agricultores, que foram submetidos pelos primeiros.

Mas voltemos à ilustração do "bom pastor". Por que um pastor seria tão amoroso com os de sua grei? Com os de seu curral? Com suas "ovelhinhas"? Para lhes dar uma vida confortável e esperar que suas ovelhas morram velhinhas e amadas? Evidentemente que não! Bom pastor é aquele que é capaz de preservar suas ovelhas para tosqueá-las todos os anos, ou, em outros casos, vendê-las por um bom preço, depois do que serão provavelmente abatidas!

O bom pastor pensa em si próprio e na sua família. Criar ovelhas é uma atividade que garante sua subsistência. Uma vez garantida, pouco lhe importa se suas ovelhas serão sacrificadas a Javé, comidas ou tosqueadas. E aí eu pergunto: será que as ovelhas que voltam ao seu "bom pastor", no caso o Cristo, sabem que ele as buscou por interesses próprios? Será que elas sabem que esse amor em breve se tranformará em morte?

O mais irônico de tudo é o caso do próprio Jesus. Se em um momento ele é o "bom pastor", em outra ocasião é ele mesmo um cordeiro. Aliás, não um cordeiro, mas o "cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". Ele mesmo é abatido com o consentimento de seu pai, também ele um "bom pastor", ou o maior de todos. E no livro do Apocalipse nós somos convidados a lavar nossas roupas no sangue de tal cordeiro.

Aí eu me pergunto: quão amoroso é mesmo esse "bom pastor"? Até que ponto vale a pena ser uma de suas "ovelhas"?

Outro ponto: a própria metáfora do "bom pastor" não passa de mais uma apropriação de hebreus e cristãos da mitologia grega. Senão, observem as imagens abaixo:



 Todas elas são representações de Hermes Kriophoros, ou Hermes Carregador de Carneiro. Atentem agora para as seguintes imagens de Cristo, feitas ainda nos primórdios do cristianismo:

 Pintura do "Bom Pastor" numa catacumba cristã, 200 d.C.

 Pintura cristã do século III d. C.

 Escultura do ano 225 d. C.

Outro "Bom Pastor" numa catacumba cristã.

Seja ele Hermes ou o Cristo, persiste o fato de que o amor do pastor às suas ovelhas só dura na medida em que estas garantem sua sobrevivência. À exceção do Jesus Cristo de Saramago, que se torturava com "a insolúvel contradição entre comer os cordeiros e não matar os cordeiros", desconheço qualquer outro "bom pastor" que criasse ovelhas a não ser para delas se aproveitar.