Já à primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam dominar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; impõe-lhes antes o acento voluntário da linha reta. (...) O traço retilíneo, em que se exprime a direção da vontade a um fim previsto e eleito, manifesta bem essa deliberação. E não é por acaso que ele impera decididamente em todas essas cidades espanholas, as primeiras cidades "abstratas" que edificaram europeus em nosso continente.
(HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1995. Página 96)
Bem, já que de Buenos Aires escrevi quando estava em Santa Fe, nada mais justo do que falar de minha morada temporária - Santa Fe - estando novamente em Buenos Aires. E por que estou acá? Para fazer o que não pude quando estive pela primeira vez na capital portenha: turismo. E por que não pude? Primeiro porque não tinha tempo; segundo porque a bendita bolsa Capes ainda não havia sido liberada. ¡Adelante!
Depois de mal arranhar Buenos Aires, no último dia 31 de maio, eu, Luísa e Roney pegamos o caminho do Aeroparque. Na paisagem, vi finalmente as "vilas miséria" daqui. Esse é o modo como as favelas são conhecidas por aqui. Mas foi tudo muito rápido. Ademais, o relevo plano de Buenos Aires favorece que as tais vilas de miséria fiquem escondidas. Diferentemente do Rio de Janeiro, onde os morros esfregam na cara dos transeuntes as favelas.
Partimos de Buenos Aires por volta das 16 h (hora perfeita). A tensão começou a tomar conta. Afinal, estávamos finalmente indo para onde passaremos os próximos três meses: Santa Fe, capital da província de mesmo nome. Ali se situa a Universidad Nacional del Litoral. O fato de ser uma cidade distante do mar me intrigava: como seria possível falar de litoral? Mas ao sobrevoar a região, encharcadíssima de braços do Rio Paraná, pude compreender.
Santa Fe de la Vera Cruz, é seu nome completo. A Wikipedia me informa que ela tem 369.589 habitantes. Pouco maior que Vitória da Conquista. É claro que as comparações entre ambas as cidades seriam inevitáveis. E a primeira: o aeroporto. Sim, Santa Fe tem um aeroporto. Conquista tem uma biboca que perde até mesmo para a rodoviária de Itambé.
Uma simpática professora da UNL nos esperava, e nos levou em seu carro para a casa onde haveríamos de fazer morada. Luísa por dois meses; eu e Roney por três. Lá também já nos esperava Héctor, responsável pelo intercâmbio. Antes de chegarmos, passamos pela cidade de Santo Tomé. Minúscula. Mas irritantemente organizada. Lembrei das cidades pequenas da Bahia. Nova verguenza. E lembrei de Sérgio Buarque de Holanda e do seu clássico Raízes do Brasil, onde é feita uma comparação entre as colonizações portuguesa e espanhola na América. Por isso usei-a como epígrafe desse texto. E digo mais: em Buenos Aires, Santo Tomé ou Santa Fe, basta dizer ao taxista o cruzamento das ruas. E se você for perguntar a alguém sobre determinada ubicación (localização), fatalmente ele vai te dizer a quantas quadras você se encontra do local, e especificar qual o cruzamento de ruas exato. Em Santa Fe, por exemplo, moro na Mitre com a Domingos Silva. Isso é suficiente. A cidade é formada por quadrados quase perfeitos, e toda esquina indica o cruzamento e a direção em que o trânsito deve fluir. Repito: toda esquina. As ruas são enormes. Daí a orientação por encruzilhadas (oritameji!) e quadras.
Adentramos em Santa Fe, e ela parece ser maior do que o seu número de habitantes indica. A tarde é fria. Nos muros, algumas pichações. Entre uma e outra com referências a sindicatos e ao partido comunista, uma me chama a atenção: protestava contra o desaparecimento de mulheres em Santa Fe. Comento, em meu portunhol abaianado, com a professora. Ela nos explica, um pouco constrangida, que se trata de rapto de meninas para a prostituição. E antes que eu faça qualquer comentário, ela emenda dizendo que no Brasil não é tão diferente.
Chegamos. Hector nos recebe, educadíssimo. Dá-nos as boas-vindas, e nos explica que, não havendo mais vagas nos alojamentos de professores ou alunos, teríamos uma casa só para nós. Por um lado fiquei decepcionado, já que queria praticar inglês e espanhol com os alunos, além de, evidentemente, interagir; mas, por outro, ter uma casa só para nós nos garantiria privacidade e o direito a um mínimo de barulho. Entramos. Em seguida, a dona da casa, Dona Alícia, atrás de nós, já chega e se apresenta. Ela fala que cada um já está devendo 500 pesos. Hector confirma, e nos diz que temos um dia para efetuar o pagamento. A bolsa da Capes ainda não havia saído. O jeito era raspar o que sobrou do salário. No dia seguinte, pontualmente às 8 da manhã, Hector nos pegaria para nos apresentar à UNL. Lembrei-me das palavras da professora Lívia, ainda no Brasil, no sentido de não nos atrasarmos. Aprendemos ainda que não deveríamos apagar o calefador - essa lareira a gás - da casa nunca. E descobrimos que, sem quintal, teríamos de lavar nossas roupas em lavanderias. Mal sabíamos que o calefador em breve teria uma nova utilidade...
No dia seguinte, pontualmente, Héctor batia à porta. É óbvio que não estávamos prontos. Engolimos o café (café?), e fomos. No caminho Roney pergunta pela academia mais próxima; Luísa, por uma escola de tango; eu, pela biblioteca ou livrarias...
Em poucos minutos já estávamos atravessando a Ponte Colgante. Seria o rio Paraná abaixo? Héctor nos explica que não. Era a Laguna Setúbal, um dos braços do Paraná. Ele nos diz que podemos caminhar pela Costanera. Pergunto se a água era limpa, e ele responde orgulhosamente que sim.
É pela Costanera que tenho caminhado, inclusive. Hora e meia por dia. O horário para fazer isso não importa: sempre vai fazer frio. Uma vez caminhei ao meio-dia. O frio era insuportável para mim: 8º. Nos fins-de-semana é possível ver as pessoas caminhando com seus cachorros muito bem tratados. Parece um desfile de cães de raça. Ao longo da Costanera famílias, grupos de amigos ou casais de namorados passeiam, ou sentam-se na balaustrada. Quase todos com sua garrafa térmica cheia de água quente e uma cumbuca para o mate. Apenas uma, que é socializada entre todos. Dizem que amarga menos que o chimarrão gaúcho. Ainda não provei.
A UNL é grande. Vamos direto para a sala de Héctor. Ele nos entrega as chaves do laboratório, e nos diz que podemos fazer uso de computadores e inclusive ligar para o Brasil. Fazemos isso imediatamente. Ele nos mostra a universidade, as bibliotecas, o espaço. Como não comparar com a Uesb? A UNL tem uma estrutura muito boa. Parece muito organizada. Mas na hora de nos matricularmos, descobrimos então - e só então - que temos de pagar por cada disciplina. Começo a perceber de onde vem o dinheiro para tanta organização.
O módulo onde funcionam os cursos de exatas e biológicas é taciturno, sério, frio. Rapidamente fui dar uma olhada no módulo das humanidades, e a diferença é gritante: cores, cartazes, protesto. Gente alternativa. E, claro, os eternos clichês de revolução.
Hora de uma pausa para uma explicação. Explicação, aliás, que sempre tenho de dar quando perguntam o que eu estudo no Brasil e na UNL. Bom, quem me conhece sabe que sou licenciado em História, com especialização em Literatura. Atualmente estou cursando mestrado multidisciplinar em Memória. Sou da área de humanas, enfim. Que diabos então estou fazendo na Faculdade de Bioquímica da UNL??? Sim, porque o próprio Héctor é ele mesmo bioquímico!
Confesso que ainda me pergunto o porquê. É claro que as disciplinas que cursamos aqui dialogam com as humanidades: todas têm algo que ver com educação e teoria do conhecimento. Ademais, é interessante o contraste nas discussões entre o povo das chamadas ciências duras, ou experimentais, e nós, das humanas. Mas, acima de tudo, trata-se principalmente de uma experiência antropológica. Tanto do ponto de vista epistemológico quanto cultural mesmo. Imersão total numa língua e numa área de conhecimento estranhos. Otredad (alteridade).
Foi mais ou menos o que disse - ou quis dizer - na entrevista que concedemos à rádio universitária da UNL. Inesperadamente, Martín (na mesma rádio trabalham três com esse nome), o locutor, me mostrou um cartaz do bicentenário da independência da Argentina, e perguntou sobre a repercussão do mesmo no Brasil. Nem pestanejei. Disse que no Brasil não há muita preocupação em se discutir africanidades ou latinidades. Eu não poderia mentir, poderia? Afinal, nos cursos de história tupiniquins aprendemos mais do modo de vida de um camponês francês ou de um operário inglês do que de um metalúrgico iorubá ou de um pescador argentino...
Uma de nossas primeiras gafes foi querer conhecer o comércio no começo da tarde, quando estavam quase todos em casa, tirando sua siesta. Parecíamos estar numa cidade fantasma. Pensamos que poderia ser feriado. Mas logo descobrimos que aqui, apesar de ser capital de província, as pessoas mantêm o hábito de tirar uma soneca após o almoço. É por isso que o comércio fecha às 12:30 e só reabre às 16:30, para só fechar por volta das 20:00 h. No começo foi desconfortável. Mas, pensando bem, a siesta não deixa de ser uma resistência cultural à voracidade capitalista.
Chega o primeiro dia de aula. E logo na turma de doutorado. Conseguimos não nos atrasar. Mas muitos da turma, sim. A professora, idem. Essa pontualidade não era algo tão pétreo assim, afinal. Para meu espanto, conseguia entender boa parte do que a professora falava. Ela também ajudava, falando devagar. Mas os colegas falam tão rápido que dificilmente entendemos algo. Os ouvidos estão, entretanto, se acostumando aos poucos. Angústia mesmo eu tenho quando quero participar da discussão. Por se tratar de uma discussão teórica, acadêmica, o pensamento e a própria linguagem tem de ser mais elaborados. Elaboro na minha cabeça. Mas cadê o vocabulário castellano para expressar o que penso? Ainda que com meu portunhol (mais "portu" que "nhol") abaianado, tenho-me feito ouvir e entender - creio.
Choque cultural mesmo foi quando fomos almoçar no comedor universitário. Prato baratinho, só 7 pesos. Chegando lá, recebemos nossa bandeja com um pedaço de frango, um pãozinho, sopa, batatas e uma laranja. O estômago avisou logo que aquilo não seria suficiente. Resolvemos almoçar no centro da cidade, no dia seguinte. Novamente a sopa, os pães, e um único pedaço de carne. E elas, claro, não poderiam faltar: as papas, ou batatas. Gente, até de arroz eu senti saudade. Mas para piorar a situação, uma das sopas era de zapallo. Claro que eu queria experimentar. Primeira colherada. Gosto de tabu. Seria abóbora? Sou filho de uma casa que cultua Iansã, e esse orixá odeia abóbora. Outra colherada para tirar a dúvida. Tem de ser! Roney e Luisa não dão por fé. Chamo o garçon. Eu não o entendo, e ele muito menos a mim. Ele tenta desenhar com as mãos o que é zapallo. Nunca fui bom em jogo de mímica. Arrisco o inglês. Ele não falava inglês. Nem a referência ao Halloween com as abóboras. Mas por que diabos um argentino teria de saber que abóboras tem tudo a ver com uma festa norte-americana? Eu não havia percebido o ridículo da situação. Melhor não tomar a sopa. Que o estômago reclame. Depois recorri ao Pai Google e descobri que, sim, zapallo é abóbora. Trato logo de procurar como se diz em espanhol os outros tabus alimentares que tenho: mel e milho (os principais).
Falando em "como se diz": aqui na Argentina o "ll" não é pronunciado como "lh", conforme geralmente aprendemos. Aqui se diz como "ch". Calle é "cache", pollo é "pocho", llamar é "chamar". Particularidade argentina, assim como o uso do "vos" no lugar do "usted". Mas esse último caso eu já havia aprendido no filme Plata Quemada.
Conhecemos pessoas legais. Dario, que nos atualiza nas gírias e xingamentos. Martín (nome popularíssimo por aqui) que nos quer vender um netbook. Diego, pisciano com quem assisto ao jogo da Argentina. Falando em jogo, eu tinha escrito antes que a proliferação de bandeiras tinha chamado minha atenção. Diego me explica que isso é atípico. Fruto da copa e do bicentenário da Argentina. Ok. Mas ainda assim é estranho ver uma universidade federal como a UNL cheia de bandeiras. Isso me é estranho porque seria estranho as universidades brasileiras todas embandeiradas. Isso não ocorreu quando do "Brasil 500 Anos". Houve, pelo contrário, muita crítica. E Diego tem muitas críticas ao bicentenário. Ele explica que San Martín não foi herói. E assim como nosso D. Pedro I não estava montado num cavalo branco quando proclamou a independência do Brasil, tampouco San Martín estava - como cruzar as montanhas senão de mulas? E Diego me indica ainda alguns novos historiadores argentinos iconoclastas em relação à historiografia tradicional.
Caso alguém tenha chegado até aqui, talvez esteja se perguntando sobre a foto que abre esse texto. Aos que me dedicaram a atenção, explico: seu nome é Jesús. Estava eu sentado num dos bancos da pietonal (rua comercial por onde só transitam pedestres) aguardando Roney e Luísa, que namoravam as vitrines. E ele chega, animado. Ao ver sua mão, pensei que quereria me vender algo. Mas ele só dizia que minha roupa era "re copada" (duplamente legal, segundo a gíria). Era minha blusa riponga, minha bermuda jeans desfiada (Roney prometeu pendurá-la no Obelisco, em Buenos Aires) e meus chinelos de couro. Jesús era a alegria em pessoa. Uma simpatia. Perguntei se estudava, e ele disse que sim, mas que tinha de trabalhar para ajudar em casa. Discurso incomodamente familiar. Traços indígenas. Outro dia, caminhando novamente pela pietonal (dessa vez finalmente com algum dinheiro, já liberado pela Capes), ouvi sua irmã chamando por ele. E o revi, trabalhando e rindo com alguns turistas.
Foi na ocasião em que conhecemos Jesús que se aproximou da gente Ricardo, catarinense capoeirista radicado por aqui há anos. Já com forte tonada (sotaque) castellana. Ele tem nos dado algumas dicas legais sobre sobrevivência tupiniquim por aqui.
E já que o dinheiro da Capes saiu, respiramos aliviados. Pagamos à pobre Luísa, que segurou a barra legal enquanto estávamos pobres "de marré de si". Até brincamos com a situação. Numa ocasião uma mendiga nos pediu esmola, dizendo: "¡Tenga piedad!" Isso bastou para que, toda vez que precisávamos de dinheiro, repetíssemos o chavão para Luísa: "¡Tenga piedad!"
Agora sou eu quem tenho piedade de algum provável e paciente leitor. Fico por aqui. Sobre a pobreza - e mesmo a miséria - em Santa Fe e Buenos Aires, escrevo outro dia. ¡Hasta luego!

Que legal seu texto Jerry, chorei de rir, me transportei no túnel do tempo para a linda Santa Fé, com exceçao do dinheiro da CAPES (pois o recebemos antes da viagem),vivenciamos muitas situações semelhante a de vocês, principalmente a comida(Pollo com papas fritas), meu estômago também reclamou de alguns pratos que eles acham "esquisitos" kkkk.
ResponderExcluirAbraços. Curta bantaste, abraços aos nossos colegas, Roney e Luisa que (ainda nao conheço pesoalmente)e grande abraço aos professores do laboratório de bioquímica, principalmente o maestro Héctor por quem tenho imenso carinho.
Sempre lindos seus textos, tanto do ponto de visto estilistico quanto pelo conteudo perfeito. parabéns e muchas gracias por apresentar-nos santa Fé. Boa estada por aí.
ResponderExcluirPS. amo milho(e todos os subprodutos) e mel.
agora te sigo oficialmente nêgo. continuo te lendo.
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