Hoje é "Dia de Finados", ou daqueles que se findaram. Não tenho certeza se eles persistem em outro plano espiritual. Mas tenho certeza que é muito bom cultivar a memória dos que se foram. Não necessariamente por eles, mas por nós, os que aqui ficamos.
O catolicismo tornou esta data um feriado nacional. Mas o que é o Dia de Finados além de mais um feriado?
Eu, que tenho muitos mortos, fico particularmente contemplativo neste dia. Já fiquei triste, hoje eu fico mais reservado. Meus pais já faleceram, e três dos meus avós. O ano inteiro é pontilhado com datas que me pegam. Aniversários de nascimento ou de morte das pessoas que amo.
Desde os gregos antigos, uma das maiores preocupações era com a descendência. Entre os iorubás, isso não é diferente. Ter muitos filhos seria uma garantia de sobreviver, de fato, à morte. Por quê? Porque permaneceríamos vivos, ao menos na memória, dos que viessem depois de partirmos.
Dois anos atrás, num ritual de oferecimento de presentes à minha cabeça, chamado bori, meu babalorixá, ou pai-de-santo, num momento do ritual, perguntou-me se eu tinha pais biológicos vivos. Disse-lhe que não, e ele fez uma pequena mudança no ritual. Além de oferecer presentes ao meu ori, minha cabeça, centro material de minha existência, ele também ofereceu presentes a meus pés, que representam a minha ancestralidade. Não apenas minha memória precisava "comer", como também a memória dos meus pais, representados por meus dois pés, pela parte do corpo que escreve nossa trajetória sobre a terra, pelo que nos traz do passado até aqui. Achei tal simbologia particularmente bonita.
No candomblé existe o culto de "Babá Egum", ou o culto aos pais ancestrais. Independentemente da fé, necessária - e na qual eventualmente ainda fraquejo - para a certeza de que os que se foram estão lá, e se lembram de nós, cobrando uma lembrança recíproca; independentemente disso tudo, acho belíssimos os rituais de rememorização coletiva dos que vieram antes de nós. É um respeito para conosco, humanos. É um respeito para com a humanidade de cada um de nós.
Hoje estou em Vitória da Conquista, e não posso visitar meus mortos em Maracás, cidade onde foram sepultados. Mas me lembro com carinho de cada um deles. Não se tornaram melhores com a morte. Lembro-me de seus defeitos também. Sagrados, tão sagrados quanto o ato amoroso e sexual que culminou no meu choro, nove meses depois.
Babá, Iyá, mojubá!
Pai, Mãe, inclino-me humildemente diante de vós...

Belíssimo texto Jerry!
ResponderExcluirEnquanto lia fui pensando... pena vivermos num mundo onde as pessoas se lembram cada vez menos do significado das coisas.
Um grande abraço.