Quase nada tinha escutado sobre Jorge Luis Borges até esse ano. Poderia até saber que se trata de um escritor argentino. Mas nesse grande universo que é a tradição canônica literária nós precisamos fazer escolhas - e para meu infortúnio, Borges decididamente não estava no meu rol de prioridades. Sendo assim, outros escolheram por mim. Felizmente.
Na disciplina "Estudos em Memória", da Prof. Lúcia Ricotta, no mestrado, tivemos de fazer a leitura de dois contos de Borges: "Funes, o Memorioso" e "A Biblioteca de Babel". Um colega nos conseguiu uma dessas traduções apócrifas que vagam pela internet, e ainda que tenha descoberto depois o quão ruim eram aquelas traduções, não pude deixar de me espantar com o que lia.
Ainda nessa mesma disciplina, agora com a Prof. Conceição, começamos a fazer leituras orientadas de Foucault. E qual não foi minha surpresa, ao iniciar a leitura de "As Palavras e as Coisas", e me deparar com um elogio rasgado do pensador francês a Borges:
Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento — do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia —, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro (FOUCAULT, 1999, p. VIII).
E Foucault, depois de descrever brevemente o texto borgeano "El Idioma Analítico de John Wilkins", que trata de uma certa enciclopédia chinesa e sua peculiar - para não dizer estranhíssima - classificação dos animais, confessa-se deslumbrado com o que lê. E eu a essa altura claro que já estava muitissimamente ansioso para ler o texto por ele mesmo, sem intervenções ou interpretações alheias. E foi só então que eu percebi, entre o envergonhado e o estarrecido, que foi necessário que um pensador europeu gabaritasse um escritor latino-americano - como eu - para que eu voltasse meus olhos para a América do Sul.
Não quero agora adentrar numa discussão sobre o cânone literário. Até porque eu não tenho competência para tanto. Mas comecei a desejar que no meu passado, lá no ensino médio ainda, eu já tivesse entrado em contato com Borges. Quantos de meus professores já o leram? Melhor nem tentar responder.
Quando fui para a Argentina, em maio desse ano, sabia que em algum momento eu leria novamente - ou pela vez primeira? - Borges. Com a aura de ler em seu próprio idioma, sem traduções/traições, e, melhor ainda, com a própria tonada argentina de falar/ler o castellano. E se meus ouvidos demoraram um pouco a digerir o novo idioma, meus olhos foram bem mais rápidos. Mas até então os textos eram basicamente acadêmicos, e havia ainda muito o que ler, não em livros, mas nas ruas de Buenos Aires com seu cheiro de amendoim doce, ou nas de Santa Fe, com suas muitas vitrines cheias de alfajores e outros pecados.
E então vieram as férias de julho, e planejamos fazer uma viagem dentro da Argentina. Cheguei a cortejar com o norte indígena, Jujuy, Salta. Mas uma oferta igualmente imperdível para Bariloche acabou voltando nossos olhares ainda mais para o sul. E não posso negar que no nosso imaginário a simples palavra "Bariloche" evocava sofisticação. Conheceríamos a neve. Dito e feito.
Dentre as excursões que faríamos, uma não deu certo. Quer dizer, não deu certo para mim. O guia turístico nos disse que, de nós três (eu e meus outros dois colegas de mestrado), um não poderia ir. Eu já não estava muito propenso a ir mesmo, e me dispus a ficar. Tinha um dia inteiro para perambular pelas ruas frigidíssimas de San Carlos de Bariloche. Sentar-me em algum lugar e tomar um chocolate quente ou um capuccino mirando o Lago Nahuel Huapi e, mais ao fundo, a Cordilheira dos Andes, já seria algo suficientemente prazeroso para mim.
Mas no caminho havia... uma livraria!
E quando entro numa livraria eu me sinto criança outra vez. Eu não diria nem que tenho crises de consumismo. Eu tenho mesmo é aquela vontade infantil de ter o que está ali, aparentemente, à mão. E deixando comparações infantis de lado, recorro a Clarice Lispector e digo que cada um daqueles livros que eu gostaria de levar seriam novos amantes para mim.
Os livros na Argentina já são mais baratos que no Brasil. Mas pensei que não seria bom negócio comprar numa cidade turística como Bariloche. Engano meu. Livros lá são tabelados. Motivo pelo qual, aliás, não adianta chorar um desconto. E como a atendente era brasileira - coisa facílima de se achar em Bariloche, diga-se -, nos pusemos a conversar e comparar as realidades do Brasil e da Argentina.
Estava querendo comprar o livro do historiador portenho Felipe Pigna, "Mitos de la Historia Argentina". Mas meus olhos bateram nas "Obras Completas" de Borges e vi que era sua vez. Pigna poderia esperar - e no meu último dia em Santa Fe comprei seu livro, objeto de uma outra postagem futura.
O volume 1 das "Obras Completas" de Borges abarca suas obras escritas entre 1923 e 1949, com três livros de poemas, três de ensaios e três de contos. Certifiquei-me de que "La Biblioteca de Babel" e "Funes, el Memorioso" estariam ali. E, para arrematar, "El Aleph". Pela bagatela do equivalente a R$60,00 comprei o livro. Se fosse comprar aqui no Brasil, seria quase pelo dobro.
Enquanto estive na Argentina lia esparsamente um texto ou outro, com muita dificuldade. Claro que tinha um dicionário à mão. E fiquei tranquilo quando Gus, amigo que fiz na cidade de Paraná, província de Entre Ríos, me disse que Borges é uma leitura difícil mesmo para o argentino mediano, e que é sempre bom ter um dicionário por perto. Não só Español/Português como Português/Português mesmo. Gus é docente no Professorado em Língua Portuguesa da Universidad Autónoma de Entre Ríos.
Só agora terminei de ler o último livro deste volume, e que é justamente "El Aleph". Três meses na Argentina me concederam um mínimo de familiaridade com o jeito daquele povo falar. E se quando lemos há sempre uma "vozinha" na nossa mente, que verbaliza apenas para nós o que nossos olhos vão percorrendo silenciosamente, é com satisfação que ouço a tonada argentina a ler Borges para mim, dentro de minha cabeça. Meus comentários e assombros sobre esse livro ficam para uma outra postagem.
Voltei correndo para o hotel e, no aconchego quente do quarto, reli os contos que já conhecia. Nevava em Bariloche nesse fim-de-tarde.
Referências Bibliográficas:
BORGES, Jorge Luis. Obras Completas I: 1923-1949. 4ª ed. Buenos Aires: Emecé, 2009.
FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. Trad. Salma T. Michail. São Paulo: Martins Fontes, 1999.


E como eu lembro desse dia. Sei bem que a "Isla Victória" foi mesmo esplêndida, mas seus olhos de "oi, comprei Borges" eram tão deslumbrantes como qualquer comentário que eu pudesse tecer sobre as paisagens.
ResponderExcluirNão sei porque, mas lendo seu texto as lagrimas me vieram aos olhos, e nao pude conte-las, nao nos conhecemos, mas posso dizer que escreves divinamente, e enquanto lia seu texto fui me imaginando nos lugares que voce descrevia, pensando como nos deixamos levar pela falta de tempo, como deixamos de ver aquilo que certamente contribuiria de forma maravilhosa em nossa vida pessoal e profissional. Eu faço Letras com Espanhol, e Borges e leitura obrigatoria, mas para mim e prazerosa, ler Borges me faz bem, porque sua loucura se une a minha loucura, dando um novo sentido a minha forma de ver as coisas/pessoas. Se eu pudesse indicar uma leitura, eu indicaria Foucault, Nietzsche, Schopenhauer, Graciliano Ramos, entre outro cânones, mas indicaria em especial Borges, pois sua loucura me encanta.
ResponderExcluirLindo texto, parabéns!!
Esta é uma linda cronica!
ResponderExcluirOs preços dos livros no Brasil... A despeito deles, ou mesmo por causa deles, sua experiência foi tão rica de descobertas.
Os encontros com escritores que podem mudar a vida são sempre cheios de acidentes, acasos ou orientações sobrenaturais. A leitura de Borges, em português, exigiu-me um esforço que logo se tornou quase num gozo. Imagino que destrinchar os meandros maravilhosos de sua escrita juntamente com o aprendizado da língua faz com que essa "vozinha" mental ganhe um caráter de guia por labirintos ainda mais transcedentais que aqueles que Borges tão magnificamente apresenta em seus escritos.
Como eu lhe disse, li apenas um livro completo, o "Ficções" e li também "O Aleph" e poemas esparços. Preciso de mais, muito mais, para me dizer um leitor de Borges, em toda a sua riqueza.
Agradeço-lhe por este texto ao mesmo tempo emocionado e lúcido, que me estimulou a retomar a leitura de mais e mais Borges.
*esparsos.
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