quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Conhecimento e Melancolia

Segundo a medicina grega antiga, as pessoas poderiam ser de quatro tipos de humores (caráteres, ou temperamentos): sanguíneo, colérico, fleumático ou melancólico. Da harmonia desses humores na vida de um indivíduo resultaria sua saúde ou sua doença.

Quero falar da melancolia, que nos traz à mente a ideia de tristeza. Segundo o pensador francês Paul Ricoeur, durante a Idade Média a teoria dos humores se desenvolveu, e o humor melancólico acabou sendo associado à depressão, à loucura, ao medo e à ansiedade. Mas apenas quando estava em desarmonia com os outros humores.

Isto porque o humor melancólico também tem seu lado positivo. Há um texto grego antigo atribuído a Aristóteles que diz o seguinte: "Por que razão os homens mais eminentes em filosofia, em política, em poesia ou nas artes são manifestamente melancólicos?" Assim, a melancolia estaria intimamente relacionada à reflexão, à sensibilidade e ao conhecimento. Tanto que, durante o Renascimento, o melancólico será associado ao gênio. Melancolia e genialidade...

Vejam a seguinte representação renascentista da melancolia, do alemão Albrecht Dürer (1471-1528):


E agora, a leitura que desse quadro fez Ricoeur
Uma mulher está sentada, o olhar mergulhado numa distância vazia, o rosto obscuro, o queixo apoiado num punho cerrado; no seu cinto estão dependuradas chaves, símbolos de poder, e uma bolsa, símbolo de riqueza, dois títulos de vaidade, em suma. A melancolia é para sempre essa figura inclinada, pensativa. Cansaço? Pesar? Tristeza? Meditação? A pergunta volta: postura declinante da doença ou do gênio que reflete? A resposta não deve ser buscada apenas na figura humana; o cenário também é tacitamente eloquente: insturmentos sem emprego, uma figura geométrica de três dimensões que representa a geometria, a quinta das "artes liberais", jazem dispersos na cena imóvel. A vaidade do saber é assim incorporada à figura desocupada. Essa fusão entre a geometria que se entrega à melancolia e a melancolia perdida numa geometria sonhadora dá a Melancholia I seu poder enigmático: a própria verdade seria triste, segundo o provérbio de Eclesiastes?

Fonte: RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Trad. Alain François (et al.). Campinas: SP: Editora da Unicamp, 2007, página 89.

Por isso lembrei dos característicos lamentos de quem preferiria não saber determinada verdade. Triste pílula vermelha, numa alusão a Matrix. O conhecimento verdadeiro seria triste. Eis a síntese da melancolia. Não por acaso a melancolia era considerada, ainda segundo Ricoeur, uma das piores tentações medievais, pior mesmo que a luxúria. O conhecimento que traz tristeza. Não foi essa a consequência do pecado adâmico de comer da fruta do conhecimento do que é bom e do que é mau?

Saber e sabor têm uma origem comum. Em Portugal, segundo me disse uma professora que lá viveu, é comum se dizer, ao se saborear uma fruta (!) ou algo de gosto agradável: "Sabe-me bem!". Ao incorporar a si o objeto do conhecimento (a fruta, o saber), o homem sente prazer (saboreia). Mas fatalmente também virá a se tornar melancólico.

Esse é, no final das contas, o grande ensinamento do mito de Adão e Eva: o saber implica em sabor, mas também na tristeza contemplativa.

Mas como do saber não há fim, também temos muitas coisas novas a saborear...

4 comentários:

  1. Prof. Jerry, muito bom este texto. Parabéns! O genio é melancólico? concordo, a julgar por Einstein. Preferia o isolamento, e em várias facetas de sua vida refletia exatamente as caracteristicas apontadas pelo texto. Um abraço, Sérgio Diego Rutherford.

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  2. geeeente...quando me perguntarem por que ando melancólica, direi: sou meio "gêniozinha"..rs.
    Adorei o texto!

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  3. A alegria escondida nessa "melancolia" dos gênios é exatamente essa, a de saber que o conhecimento não tem fim e que jamais faltará algo que saborear.

    Como sempre um excelente texto Jerry!

    Um grande abraço!

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  4. São dois anjos na gravura de Ricoeur. Um anjo adulto, talvez "mulher" e um anjo bebê. Acho que se trata da melancolia de anjos decaídos, daqueles que perderam seu lugar de forma tão dolorosa quanto a de ter as asas podadas. Aparentemente, esses anjos estão presos num ambiente material (pregos, martelos, uma roda semi-acabada, rochas...). Estão cercados de projetos terrenos inacabados, triste sina para quem voava livre nos domínios celestes.

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