segunda-feira, 21 de março de 2011

I Can Do Bless: Uma semana no candomblé do Axeloyá

 "Bandeira branca hasteada em pau forte..."

E lá já se vão sete anos desde que adentrei pela primeira vez os muros do Axeloyá, terreiro de candomblé de nação ketu situado na Estrada do Raposo, oficialmente bairro de São Cristóvão, mas aonde só se chega pedindo para ir à Pedreira. Alguns dizem que já nem é mais Salvador, e sim município de Lauro de Freitas. Permanece o fato, porém, de que não é um lugar tão fácil de se chegar - bem o sei! Mas lá cheguei em 2003, desapontado com o candomblé e ainda com alguma fé nessas energias que os iorubás e seus descendentes no Brasil chamam de orixás.

Era 2003 e lá estava eu, iaô recém-iniciado, com apenas a obrigação de um ano paga. Os búzios de meu pai, Julio Braga de Iansã, Oyá Tundê, bem como a dona da casa, a dona do axé, convenceram-me a ficar - muito mais do que os títulos acadêmicos do Doutor Julio Braga. E desde então tenho pelo menos duas datas por ano para estar em Salvador: março, para a festa-mor da casa, a festa de Iansã; e setembro, para o Olubajé, o banquete do rei Omolu. Como nunca fui muito chegado ao culto aos caboclos, geralmente não apareço por lá no 2 de julho, que é quando se celebram tais entidades na casa, num culto tímido, restrito, mas vivo. E ocasionalmente alguma obrigação de algum filho da casa também acaba me levando para lá.

Protegido, do lado de dentro

Desta vez, como é março, fui para a festa de Oyá Iansã. Feliz por saber que meu pai fazia questão de minha presença durante toda a semana. Agora não mais como iaô, mas como ebômi. E, para além de ebômi, como babalorixá de direito, já que recebi minha cuia no ano passado. Se um dia serei pai-de-santo de fato, não sei. Como disse meu pai, tenho em minhas mãos um habeas corpus preventivo - a cuia - e se a cobrança se concretizar, já terei a faca e a navalha em minhas mãos.

Jóias do axé

Esta foi uma semana de aprendizado como babalorixá. Aliás, cabe aqui uma reflexão. Na casa de meu pai, quando alguém recebe o cargo de babalorixá ou ialorixá (pai e mãe-de-santo, respectivamente), ele está apto a aprender os segredos vedados aos iaôs e mesmo aos ebômis. Tal pessoa começa seu aprendizado como pai ou mãe-de-santo. Fecho parênteses, sem sotaques ou tiranias.

E na segunda-feira eu e Adauto de Exu chegamos ao Axeloyá. Descobrimos que haveria obrigações de 1 ano para uma ekédi de Ogum, e de 3 anos para uma iaô de Omolu e outra de Ogum. Sim, haveria muito trabalho.

Cantamos para as folhas. Esse é um aspecto particularmente emocionante para mim. Cada folha sagrada tem seu próprio culto. As folhas, que contêm em si o axé, a energia vital, de forma latente, são por assim dizer "despertadas" através de cantos laudatórios. Cada um mais bonito que o outro. E à medida que meu pai cantava para cada uma, respondíamos, uníssonos. E, para minha surpresa, eu me peguei respondendo a todas. Não é fácil cantar para mim. Especialmente em uma língua estranha - na verdade, cada vez menos estranha - o iorubá litúrgico.

Adornando Iroko, a árvore sagrada


Antes disso, porém, acompanhamos as iaôs em seu balué, sua procissão pelas estradas e matas em busca de águas límpidas para diversos usos ritualísticos. Para meu espanto, ao mesmo tempo em que me ensinava meu pai me testava, e ordenou que eu "puxasse" a cantiga e as iaôs pelo itinerário. Por mais de uma hora tive de conduzir o rito, como um filho satisfeito por não decepcionar o pai.

E então se sucederam os atos, os cantos, os ritos e as dramatizações dos mitos. Tudo tão simples e tão complexo ao mesmo tempo. Segredos do axé, que os olhos do não-iniciado não podem ver - muito menos ler em textos de internet. A despeito das apostilas que por aí prometem vender o acesso direto aos segredos, prefiro que o meu aprendizado (e de meus [im]prováveis filhos-de-santo) se dê ao modo de minha tradição, aos poucos, sempre, com vivência.

Já disse que sou ex-testemunha-de-jeová. Após a saída desta seita passei um bom tempo agnóstico. A vivência no candomblé é para mim muito menos a busca de respostas racionais às perguntas existenciais (quem sou? de onde vim? para onde vou?) do que a permissão de vivenciar minha irracionalidade. E não estou com isso querendo dizer que o candomblé seja uma religião para irracionais. Longe de mim! Freud já disse que somos muito mais irracionalidade (inconsciência) do que racionalidade (consciência). Por mais que queiramos ser conscientes todo o tempo, não conseguimos. Muitas vezes nem percebemos que nossos atos que se querem conscientes são em grande medida influenciados por nosso inconsciente. Assim, sem abrir mão do que já conquistamos até hoje através da racionalidade, permito-me, através de minha religião, entregar-me a mim mesmo, ao meu eu profundo, ou, como disse o racionalista Pierre Verger, ao "esquecimento" em mim mesmo. O candomblé é para mim um (re)encontro comigo mesmo. Seja quando canto para uma folha, um animal, uma pedra ou um orixá, quando me banho nas águas sagradas ou quando permito que meu orixá aflore. Assim é que digo que o candomblé é minha válvula de escape, meu encontro com o desconhecido de mim e em mim mesmo. Eis a minha estratégia racional para conviver com o irracional - ou seria o contrário?

Bom, e para além de minhas idiossincrasias, a festa de Iansã foi uma beleza. Nunca vi o barracão do Axeloyá tão cheio em todos esses anos. Meu pai se emocionou muitíssimo ao agradecer a Iansã por sua saúde, e eu por minha vida. Oxóssi veio, claro. Dançou, à sua maneira, com outras divindades que se fizeram presentes nos corpos de meus irmãos-de-santo. Lá estavam também Exu, Ogum, Omolu, Oxumarê, Xangô, Iansã (a dona da festa), Oxum, Iemanjá e Oxalá. Todos dançaram.

E me lembro de Nietzsche:  

"Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar."

E arremato com o poeta português Manuel Alegre, com versos que bem poderiam ter sido escritos para Iansã e toda a corte dos orixás presentes no Axeloyá, no último sábado:


"Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
 
Tudo em ti é milagre Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades."




5 comentários:

  1. Que maravilha de experiência e de reflexão Jerry!

    Já imaginou Nietzsche frequentando o candomblé?

    Hehehehe!

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  2. Jerry, fiquei realmente encantada com essa postagem.
    Que Yansã guarde a sua irracionalidade como um tesouro...bênção!

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  3. Meu pai lhe abençoe, Janaína. Sua bênção!

    Bom saber que há quem leia - e, melhor, quem goste - do que eu escrevo. E saber que agrado a gente do seu quilate é realmente um prazer para mim. Como é bom nos esquecermos em nós mesmos. Como é bom adorarmos a divindades que sequer se ofenderiam se não acreditássemos nelas...

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  4. Meu irmão fiquei muito emocionada com seu texto e muito feliz, a cada dia que passa sinto que você é uma pessoa muito especial não só para mim mais para muitos. Te amoo mano.

    Bjs da sua irmã de Oxum.

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  5. Obrigado pelas palavras de carinho, minha irmã de Oxum, irmã de esteira da obrigação dos três anos, pessoa sempre próxima em minha vida no Axeloyá. Espero que continuemos assim por muito tempo ainda, aprendendo juntos com nosso pai Julio. Você, Carlinha, é um presente de Oyá em minha vida. Com toda essa beleza e esse dengo, só poderia ser mesmo da Oxum. Te amo, minha irmã. Sua bênção!

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