Sempre me disseram - e nas últimas semanas isso quase se tornou um mantra - que "o tempo cura tudo". O que é uma mentira escandalosa. Em sentido absoluto é, sim, uma mentira. Dá a falsa impressão de que há uma entidade pessoal, chamada tempo, que se ocupa de nossas tristezas, angústias, frustrações e coisas que tais. Não há. Definitivamente não há. O que pode haver é um fragmento de verdade nisso tudo. O tempo não cura nada porque, em última instância, ele destrói tudo. Tudo. Como é dito no começo e no fim - e quem já assistiu sabe que eu poderia dizer isso na ordem inversa - do filme "Irreversível", de Gaspar Noe: "o tempo destrói tudo". Esse é o absoluto. A cura - ou o que chamamos de cura - nada mais é que um recorte no próprio tempo da sua ação destruidora. Explico: a sensação de cura que ocasionalmente experimentamos é um fragmento de um todo maior. Nesse fragmento, o tempo e sua voracidade apagaram o que havia de dor e de desespero. Ótimo. Que se aproveite desse fragmento. Mas o tempo não pára aí. Sendo autofágico, ele não respeita nem a si mesmo. Por que então respeitaria a suposta cura que nos trouxe? Ele prossegue, cego, devorando a "cura". E as pessoas que ilusoriamente experimentam a "cura". E os sentidos que damos a tudo o que se chama de "cura". Para onde foi, afinal, o conforto da "cura"?
Gaspar Noe preocupa-se, no filme que citei acima, com a irreversibilidade do tempo e nossa cegueira quanto a isso. A cegueira que me incomoda é outra. É a da inexorabilidade do tempo. Não penso que a história - ou as histórias, as comezinhas, as nossas - tenha um sentido, uma direção. Não, não sou teleológico. Acredito no caos. Talvez eu seja escatológico, mas apenas no sentido de que tudo caminha para uma consumação final. Inclusive o próprio tempo, que não existindo para além do homem, se extinguirá quando o último de nós desaparecer. Porque vamos desaparecer, não sejamos pedantes ao ponto de pensar que não. Assim, não somos filhos de Cronos, que nos devora. Somos seus pais. Mas ainda assim ele nos devora. O tempo, esse parricida, destrói tudo.
Das pontuações, quando aprendia os rudimentos da gramática e da ortografia, a que mais me fascinava eram as reticências. Sempre achei o ponto final algo brusco. As reticências, por seu lado, têm por missão deixar em aberto a possibilidade de prosseguimento. Ou ao menos uma intenção de prosseguir. O ponto final sempre me pareceu cru. Às vezes almejado, quando a leitura era enfadonha. Outras vezes excomungado, quando me perdia pelas páginas sem me preocupar em contar quantas restavam; angustiava-me apenas a aproximação do inexorável ponto final. Mas ele chega. Se não o pusermos, alguém o porá por nós. E ainda que intimamente queiramos o agnosticismo do reticente, impera, no final, o incrédulo ponto. Final.
Penso que é, sim, sabedoria usar a destrutibilidade do tempo a nosso favor. Que chamem a isso de cura pouco me importa. Mas é loucura pensar que o tempo está necessariamente trabalhando por nós. Como é também parvoíce sem tamanho esquecer que o tempo seguirá a tudo destruindo. E morrerá conosco. Como um vírus, que ao matar seu hospedeiro mata a si mesmo. Não sejamos reticentes quanto a isso. Sem medos do ponto final.
Ponto final.

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ResponderExcluiro tempo não cura nada, ele só tira as coisas do centro de atenção.
ResponderExcluirSimplesmente não há como pensar num comentário que caiba de forma perfeita à sensação que o texto me causou.
ResponderExcluir"O que pode haver é um fragmento de verdade nisso tudo. O tempo não cura nada porque, em última instância, ele destrói tudo. Tudo. Como é dito no começo e no fim - e quem já assistiu sabe que eu poderia dizer isso na ordem inversa - do filme "Irreversível", de Gaspar Noe: "o tempo destrói tudo". "
Forte, necessário e verdadeiro. Como um tapa que te acorda pra realidade.
Tempoema
ResponderExcluirVamos fazer um poema com o tempo
as dobras do tempo
os lapsos
cápsulas
armadilhas
capturas do tempo
Vamos fazer um poema com tempo
de desfazer mal-entendidos
e reatar elos
per
di
dos
Vamos fazer
um
poema
por dia
com algas e ondas e sóis
e maresia
caracóis e cascatas
de poesia
Vamos fazer um poema na noite
da estrada vazia
dos séculos atrás e adiante
metro livre
e rima cantante
Vamos fazer um poema que ignore as guerras
e entenda as marés
um poema que nos ponha asas
nos pés
Vamos fazer um poema agora
com versos soltos e sortidos
palavras puras
e sentimentos
de hoje
nos atavios
de outrora
Um poema feito na aurora
Vamos fazer um poema poema
grafema morfema fonema cinema
particípio passado do presente contínuo
breve como um grito
largo e longo e lasso
como o infinito