domingo, 25 de setembro de 2011

Felicidade pelo retrovisor



Há gente ocupada demais - e aí estão o msn, o orkut e o facebook que não me deixam mentir - em ser feliz. Não sobra a essas pessoas tempo para mais nada, confessam, algo entre o constrangido e o desesperado. Da obrigação de ser feliz. Não quero, porém, falar disso. A conceder o benefício da dúvida a tais alardeadores da felicidade própria, pergunto-me: como podem ter certeza de que são felizes?

Meu pai(-de-santo), Julio Braga, anteontem nos falava - a mim e a outros irmãos-de-santo - sobre como a felicidade não é. Era. Ou, com um pouco de boa vontade de minha parte, tem sido. Dizia ele que, mexendo em coisas antigas, encontrou algumas fotos suas de fins dos anos 60. Não sabia ele precisar se a foto fora tirada no Senegal, no então Daomé (hoje Benim) ou no Brasil. Ao fundo só havia o mar. E, em primeiro plano, ele, que nem trintado ainda havia. A foto era borrada. Disse-nos meu pai que se contemplasse a foto naquele ano, e nos seguintes, somente lhe pareceria mais uma recordação de suas viagens à África - sim, ele recordou, a foto havia sido tirada lá. Hoje, porém, na altura em que ele se aproxima de completar setenta anos, aquela foto lhe mostrava que, sim, ele era feliz ali. A percepção, entretanto, só lhe ocorria agora. Ou, em outras palavras, não é apenas a vingança um prato que se come frio. A felicidade também o é.

Foi então que ele falou sobre o que me motiva a escrever hoje: a felicidade é um "foi", ou "tem sido", que só se percebe - desculpem-me a redundância -  a posteriori. Somente podemos julgar com segurança a respeito da felicidade em nossas vidas quando nos afastamos daquele momento, e o contemplamos com os olhos de hoje. Não, ele não quis dizer que só quando estamos tristes é que podemos medir a felicidade. A tristeza é também paixão, e atrapalharia um bom juízo - como a euforia que apressadamente tomamos por felicidade no momento em que a experimentamos. Quando se é feliz, é-se de forma inconsciente. A consciência da felicidade é já um afastamento dela, um alheamento, e, portanto, é sair dela. Quando já não estamos mais nela é que podemos discernir que - e o que - ela foi.

Isso me traz à mente Maria Bethânia recitando Bernardo Soares, heterônimo não tão conhecido de Fernando Pessoa. Reproduzo o texto original que foi adaptado por Bethânia para seu espetáculo "Imitação da Vida":

Lembro-me de repente de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a vida. Via a manhã, e tinha alegria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas.

Tanto para meu pai quanto para o poeta a felicidade só foi percebida quando o tempo passou. Ela foi vista em retrospecto. Já não é mais. Vivida de forma inconsciente, a consciência dela - da felicidade - deriva do movimento para fora ocasionado pelo tempo, esse que a tudo destrói, conforme digressão já feita por aqui. Bernardo Soares só fica triste após perceber que já não é feliz. Mas antes da percepção a constatação - ele foi feliz.

Sim, ronda todo esse texto minha preocupação acadêmica desde o ano passado - a memória. E permitam-me a costura, mas depois de invocar meu pai-de-santo e um prosador poeta, chamo agora Pierre Nora, historiador francês que discorre sobre as relações entre memória e história. Para Nora a memória já não existe em nossos dias. Ela foi substituída pela consciência da memória - ou seja, a história. As sociedades que viviam na memória faziam-no de forma inconsciente, acrítica. Viviam, simplesmente, em continuidade com seu passado mitológico do qual não se afastavam nunca; pelo contrário, o presente era uma constante atualização de um passado sacro. Entregues à "dialética da lembrança e do esquecimento", as pessoas nunca problematizavam seu presente - e muito menos seu passado, do qual não se consideravam apartadas. Com o surgimento da história - ou da historiografia para ser mais preciso, que é, segundo Nora, uma história consciente de si, ou em segundo grau - todo o passado é problematizado. Iconoclasta que é, a história quer desconstruir os mitos e as origens, e não poupa nem a si mesma. O historiador só pode dizer às pessoas que o passado não era bem assim porque ele se encontra alheio à memória; ele cinde a continuidade entre passado e presente. A história, ela mesma uma musa para os gregos antigos, personificada por Clio, comete pois um crime quase que universal: mata sua mãe, a memória, ou Mnemosine.

Não quero levar à frente a discussão de Pierre Nora. Para meu propósito chega a referência acima às suas ideias. É provável que meu improvável leitor já tenha estabelecido a ligação que se deu em minha mente: a memória e o esquecimento estão para a felicidade assim como a história está para a percepção dessa felicidade. É-se feliz, inconscientemente, como quando as pessoas viviam imersas no mundo da memória atualizadora do passado e não consciente de si; percebe-se que se foi feliz quando essa felicidade já não é, como quando a história diz que já não há mais memória - ou felicidade, como saber? E assim como Bernardo Soares, que se vê a si criança por trás de seus olhos adultos - e é nesse momento que ele sabe que foi feliz - fica triste só após essa percepção, a história, que nada tem a oferecer após destruir o mundo mítico da memória, não pode ofertar nada que não seja uma melancolia, essa tristeza dos que pensam. A percepção, porém, não é triste em si mesma. É quase que um susto. Como encontrar uma velha fotografia. E é só após essa percepção inesperada que se sabe que se foi feliz. O que não quer dizer que não se seja feliz no momento da percepção. Aquela felicidade percebida fortuitamente é que não existe mais. Talvez até se seja feliz agora - mas isso só poderá ser percebido depois, como que num novo balanço não planejado.

E Bethânia, qual musa, sopra-me aos ouvidos toda essa digressão acima numa frasezinha de Guimarães Rosa: "Felicidade se acha é em horinhas de descuido". É no descuido e na inconsciência que somos felizes. Quando cuidamos da felicidade é porque ela já não existe.

2 comentários:

  1. Eu não acredito em felicidade plena...felicidade é marketing incultido pra vender carro, casa, roupas, religião e margarina(pq não?)
    Existe só momentos alegres, as vezes beeeeeeeem alegres...mas só momentos!A vida é sofrida, é batalha, e se ganha e se perde todo minuto. E nos ganhos marcamos aquele pontinho positivo, aquele que futuramente nos confortará, ao olharmos nos retrovisores da vida e dizer que de qq forma valeu e sempre vale a pena...bjs

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  2. Eu nem sei a que chamamos de felicidade. Mesmo porque para cada ser tem uma definição. E sinceramente, nem sei se tenho a minha definida, ou se nela acredito.

    De todo esse belo texto duas frases me assolaram como 'minhas' verdades:

    "a felicidade é um "foi", ou "tem sido", que só se percebe - desculpem-me a redundância - a posteriori."

    "...a memória e o esquecimento estão para a felicidade assim como a história está para a percepção dessa felicidade. "

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