Tomando mate com colegas na UNL - Santa Fe - Argentina
Manda a etiqueta do mate argentino que aquele que o preparou seja o primeiro a dele provar. É porque a primeira sorvida traz todo o amargor da bebida, e é uma cortesia tomar antes e poupar os outros amigos da roda dessa espécie de colostro. Mentira pura. Na verdade esse mito, creio, foi criado para justificar que a primeira bebida, em minha opinião a melhor, fique com quem preparou o mate. O que não deixa de ser uma cortesia dos outros amigos.
Um dos primeiros alheamentos que experimentei na Argentina diz respeito justamente a essa cascata de rituais que envolve tomar mate. Ensinou-me - ou ao menos tentou me ensinar - Francisco Russo, em madrugada fria. Chegou ele com sua parafernália: bolsa de couro apropriada para comportar a garrafa térmica, o recipiente com o mate (a folha) e a cumbuca (lá chamada simplesmente de "mate") e a bombilla. De antemão já sabia que não gostaria. Mas foi interessantíssimo observá-lo na execução do ritual: folhas de mate a três quartos da cumbuca; tapa-se com uma das mãos e se agita a cumbuca para retirar o excesso de folha em pó, que poderia tapar a bombilla; bate-se um pouco num dos cantos, para que as folhas depositadas fiquem na diagonal; um pouco de água morna no fundo; põe-se a bombilla e ¡listo!, eis que se pode despejar a água aquecida num ritual à parte, já que não pode ferver, e o ideal é que seja tirada do fogo quando as primeiras bolhas se soltam do fundo da panela.
Mas o ritual não acaba aí. Como disse acima, é hora do cebador, aquele que preparou o mate, prová-lo em primeira mão. A mim me lembra o ritual de provar do vinho - outra coisa aprendida com Francisco Russo, esse chef que tive o prazer de conhecer e me ensinou uns tantos bons modos. Quem preparou o mate deve prová-lo e só depois passar adiante. Deve guardar para si o amargor concentrado, e dividir com os amigos uma bebida mais "domesticada". Diz-se em Santa Fe que alguém só é considerado adulto quando já toma do mate sem precisar adicionar açúcar. É que os bebês, para serem iniciados nesse estranho ritual, tomam-no adoçado nas suas mamadeiras.
Dividir. Enquanto preparava o mate, Francisco Russo me ensinava que "el mate es el símbolo del compartir". É uma atividade social. O que já vinha comprovando na prática, antes de conhecer Francisco Russo. Quando caminhava pela Costanera, avenida em bairro nobre de Santa Fe, onde os moradores vão caminhar, à beira da Lagoa Setúbal, ou simplesmente interagir. Via por lá grupos de pessoas sentadas em rodas, tomando mate: famílias, colegas de escola, amigos, casais de namorados, reproduzindo o ritual de compartilhar do mate. E também nas aulas lá na Universidad Nacional del Litoral (UNL), quando nossos colegas preparavam o mate em meio à aula, e passavam aos demais, inclusive aos professores. Foi lá, aliás, que experimentei o mate pela primeira vez, e cometi as primeiras gafes: toquei na bombilla e dei apenas uns dois goles, sem tomar de todo o conteúdo. Discretos e condescendentes, meus colegas não me apontaram tais quebras de etiqueta. Coisa que Francisco Russo fez depois, amavelmente, rindo de minha falta de jeito.
Toma-se todo o conteúdo do mate. Devolve-se a cumbuca ao cebador, que renova a água quente, e passa ao próximo da roda. E assim sucessivamente. Outra gafe comum dos brasileiros - ao menos dos não acostumados ao mate - é, ao devolverem a cumbuca, agradecer. Não, não se diz obrigado - ou ¡gracias! - até que se acabe o encontro. Não é necessário agradecer a cada vez que se toma, sob o risco de ser mal-interpretado como alguém que não quer mais tomar do mate com os amigos. Afinal, ele nem acabou ainda...
Confesso que só vim a apreciar realmente o mate depois de voltar ao Brasil. Mas no fim do terceiro mês em Santa Fe seu gosto já não me era tão estranho. E na última disciplina, com a professora galega que também não entendia como se gostava do mate, eu já tomava sem estranhar o seu amargor. E recordo com saudade do domingo já próximo de meu retorno em que, além de Francisco Russo, tinha por companhia Luís Corvalán para uma roda de mate. E qual não foi minha surpresa ao ver que, sim, lá existe até máquina que vende água na temperatura ideal pelo preço módico de 1 peso o litro! Domingo frio, com feira hippie e sándwich del viejo. Maldito o ladrão que levou minha máquina com aquelas fotos.
Compro na rodoviária de Santa Fe, já no dia de vir embora, minha cumbuca e minha bombilla. Já sabia que não seria apenas um souvenir. Mas inadverditamente não trouxe da yerba argentina, pensando que aqui encontraria. Não, não se encontra. Depois de voltar só encontrei o chimarrão, e tentei em vão tomar dele. É que o chimarrão é preparado de forma distinta. A erva é a mesma (Ilex paraguariensis), mas a forma de processá-la, não. Os brasileiros do sul tomam-na crua e quase em pó, motivo pelo qual minha bombilla sempre se tapava, e eu inutilmente não entendia o porquê. Ao voltar à Argentina nesse ano cuidei em observar que os argentinos tomam da erva estacionada, ou seja, seca, quase que torrada, ao sol ou industrialmente; e acresce o fato de que as folhas são trituradas, e não moídas, e vêm inclusive com pedaços de palo, ou seja, caule. Claro que trouxe ao menos 3kg dessa vez. E um deles já foi embora!
O triste é tomar do mate só. A quem o ofertei por aqui não lhe agradou. E desde então, nesses frios e cinzas dias de Vitória da Conquista, tomo diariamente ao menos um litro de mate. Prepará-lo é algo que faço com gosto e calma. Gosto de sentir seu cheiro. Gosto da primeira sorvida, mais selvagem. Ativa-me as memórias olfativa e gustativa de noites não tão frias na Argentina. E assim, entre uma sorvida e outra, venho navegando na internet e lendo meus livros.
Aguardo a chegada de Teobaldo, que comigo foi à Argentina dessa vez e também trouxe sua cumbuca e sua bombilla, além de alguma yerba. Disse-me que não tem tomado mate lá em Recife por conta do calor. Bem, para variar hoje é um dia cinza em Vitória da Conquista. Espero que o frio fora de estação continue por alguns dias, para que eu tenha finalmente uma companhia para compartir dos rituais do mate. Sem açúcar, que não somos mais meninos, hein?
Mate em tempos de globalização
Não conheço da "yerba" argentina, tenho o costume do mate e também do tereré, experimentei de várias marcas e somente uma me agradou de verdade até agora, a mesma com a qual me iniciei numa festa de república (aqui os alunos de zootecnia e afins são loucos por um mate). E sempre o tomo sozinho também. Agora tu me deixou com grande curiosidade sobre o mate argentino!
ResponderExcluirBom, como sempre um ótimo post Jerry. É sempre muito prazeroso lê-lo.