Alguns anos atrás, antes ainda de completar os sete anos de iniciação no candomblé e pagar a obrigação que me tornou ebômi, título de senioridade da religião, um amigo meu me perguntou se haveria algum ebó para o esquecimento. Ele trazia uma aflição no seu peito, e diante da certeza de que as coisas não mudariam, tentava esquecer o passado, sem sucesso. Eu lhe disse que ignorava a existência de um ebó para tal fim. Aos que desconhecem o significado da palavra, "ebó" vem do iorubá, e significa "presente", "oferenda". Através de alguns atos e palavras, bem como da manipulação de alguns elementos, oferece-se algo ao sagrado em troca de algum favor. E o que esse meu amigo queria era alcançar a graça de esquecer. Aquilo me deixou intrigado. Passei-lhe então o contato de meu babalorixá, e o que sucedeu dali por diante ficou entre os dois. Seria mesmo possível haver um ebó para o esquecimento?
No mestrado que estou concluindo, em "Memória: Linguagem e Sociedade", fizemos não poucas discussões acerca da memória e de sua contraparte necessária - o esquecimento. Aprendi, lendo as retóricas latinas, especialmente a Retórica a Herênio, de autoria desconhecida mas durante muito tempo atribuída a Cícero, que havia uma arte (ars em latim, correspondente à téchne dos gregos) de memorização. Tratava-se de uma mnemotécnica: um conjunto de procedimentos para ajudar a memória natural a se lembrar de todos os argumentos - e mesmo de todas as palavras! - de um discurso. E o filósofo francês Paul Ricoeur (2007), na sua soberba obra A Memória, a História, o Esquecimento, faz uma pergunta desconcertante: assim como havia uma arte da memória, seria possível também uma "arte do esquecimento"?
Há vários tipos de esquecimento. Há, por exemplo, o oficial, compulsório, promovido pelo Estado quando decreta a anistia. Todos os lados são perdoados, desde que todos esqueçam o passado. Trata-se de um esquecimento imposto, com o fim de promover a paz. Mas estaria a paz acima da justiça? Ricoeur diz que não. Há uma base ética para a memória e o esquecimento, e tal base tem de ser a justiça. Assim é que países como a África do Sul pós-apartheid e a Argentina pós-ditadura recusaram-se a esquecer, simplesmente. A justiça deveria ser feita. E se a Argentina vem julgando e mesmo decretando a prisão dos responsáveis pelo horror da ditadura, o Brasil, por outro lado, governado por uma mulher que foi ela mesma vítima dos militares, mostra-se resistente em aplicar a justiça através da memória. Ainda se quer esquecer. Mais até: ainda se impõe o esquecimento. Os arquivos da memória continuam inacessíveis à população brasileira.
Mas a mim me interessa mais, ao menos nessa altura de minha vida, o esquecimento enquanto fenômeno que se dá na mente do indivíduo. Não sob o viés das neurociências, que têm mapeado o cérebro humano e apontado em que região do mesmo a memória habita. A mim me interessa o esquecimento sob a abordagem fenomenológica. E se ao cabo da leitura de Ricoeur não tenho certezas, ao menos alguma coisa aprendi. Há, sim, um esquecimento benéfico. É o que o filósofo francês chama de "esquecimento de reserva". É impossível que lembremos de tudo. Para que nosso cérebro trabalhe, ele permite um esquecimento seletivo. Mas o que se esquece fica em algum lugar, e com algum esforço conseguimos recuperá-lo. Nesse caso o indivíduo quer lembrar, e sente uma espécie de prazer quando consegue fazê-lo. A lembrança sempre esteve ali, "à mão". Quando não se consegue lembrar após um esforço, o sentimento é de frustração, e a coisa a ser lembrada não está mais no "esquecimento de reserva", mas foi para sempre devorada pelo esquecimento total.
Não, Ricouer não poderia deixar de fazer alusão a "Funes, el Memorioso". Este foi o primeiro conto do escritor argentino Jorge Luis Borges que eu tive de ler. Numa tradução péssima, pescada na internet por um colega do mestrado. Lido uma hora antes da aula da Prof. Dra. Lúcia Ricotta. E ali se abriu um novo mundo para mim. Borges mostra de forma magistral como seria a vida de um homem - Ireneo Funes - que sofria da maldição de nunca esquecer de nada:
En efecto, Funes no sólo recordaba cada hoja de cada árbol de cada monte, sino cada una de las veces que la había percebido o imaginado. (...) Pensó que en la hora de la muerte no habría acabado aún de clasificar todos los recuerdos de la niñez (BORGES, 2009, p. 588-589).A Ireneo Funes era incompreensível, segundo Borges, que uma só palavra, "cachorro", por exemplo, bastasse para designar todos os indivíduos da espécie, todas as suas raças, todos os seus tamanhos. Com sua memória prodigiosa que desconhecia o esquecimento, Funes inventava nomes diferentes para um mesmo cachorro visto às 3:14 de perfil e, no minuto seguinte, de frente. Não poderiam dois momentos distintos de uma coisa ser a mesma coisa. E em sua voracidade por tudo reter na mente, lhe custava dormir. "Dormir es destraerse del mundo" (BORGES, 2009, p. 589). E lhe custava pensar:
Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos (BORGES, 2009, p. 590).Sua bênção, Borges! O esquecimento é necessário para que o próprio pensamento generalize e abstraia. Um homem improvável como Funes não poderia pensar, sintetizar, porque estaria muito ocupado em classificar as miríades de informações que são enviadas a cada segundo ao cérebro humano. E ele, o cérebro, sagazmente esquece, para poder pensar. Algumas coisas ele envia para o obscuro mundo do "esquecimento de reserva", e resgata quando necessário. O grosso, porém, esquece, simplesmente.
Não temos controle sobre todo o processo. E há coisas que, de fato, gostaríamos de esquecer. E se o homem conseguiu inventar uma arte da memória - repetimos com Ricoeur -, por que não seria capaz de criar também uma "arte do esquecimento"? Ou, no plano mágico, da fé, por que não poderia haver um "ebó para o esquecimento"?
E já que voltei a falar de ebó, ocorre-me que quando alguém se submete a fazer - ou "tirar" - um, tem alguns ingredientes passados em seu corpo, os quais são depositados aos seus pés. Findo o ritual, o sacerdote ou sacerdotisa ordena que a pessoa caminhe para a frente, para tomar um banho de ervas maceradas, "sem olhar para trás". Simbolicamente quer-se dizer com isso que o mal que a pessoa sofre deve ser "esquecido" pelo ato de não olhar para trás, para o passado. E aquele "carrego" - todos os elementos utilizados no ebó - deverá ser depositado em algum lugar por onde a pessoa nunca passe, para que ela não corra o risco de se "lembrar" do mal que, segundo a fé, fora "esquecido".
Tenho eu mesmo, como toda a gente, coisas que gostaria de esquecer. E recentemente essa necessidade tornou-se quase que insuportavelmente premente para mim. A psicanálise me foi de grande valia, ironicamente, por me ajudar a lembrar do que eu havia esquecido. E, mais importante, me ajudou a pensar - e aí se fez necessário esquecer de algumas coisas, segundo Borges - sobre o que eu gostaria de esquecer. Ao lado da psicanálise, os amigos foram muito importantes para que eu pudesse lidar com minhas memórias dolorosas. Entre eles, meu pai-de-santo. Toda vez que vou ao Axeloyá, o terreiro de candomblé que frequento, em Salvador, peço a meu pai meus quinze minutos de conversa a sós comigo. Não para aprender ebó e outros encantos da religião. Isso se consegue no dia-a-dia, observando, fazendo. O que eu queria era ouvir seus conselhos. Mas da última vez eu lhe perguntei, tímido - confesso - se ele havia ensinado àquele meu amigo do qual falei, no começo desse texto, o tal "ebó para o esquecimento". Ele sorriu, terno, amoroso, e me contou de suas próprias memórias tristes. De como elas foram necessárias para o seu crescimento. E de como se aprende a conviver com elas. E como elas fazem parte do que ele é. E de como minhas próprias memórias, sejam elas festivas ou funestas, são necessárias para mim.
O certo é que voltei para casa, em Vitória da Conquista, com minhas memórias ainda entaladas entre o peito e a garganta - mas não morariam elas na cabeça? Pareceu-me incompreensível o que meu pai dizia. Mas o tempo, esse deus que a tudo destrói, ajudou-me a ruminar a memória e o esquecimento. E o certo é que não fiz nenhum ebó. Algum tempo depois, vasculhando e-mails antigos, encontrei, meio por acaso, uma mensagem daquele mesmo amigo, dizendo o passo-a-passo do ebó que, sim, meu pai lhe ensinara. Ele não realizou o tal do ebó. Conseguiu conviver com suas memórias. E embora eu mesmo agora finalmente soubesse a "receita do esquecimento" segundo o candomblé, recusei-me a proferir palavras e realizar atos em tal intenção. É que pensar em esquecer é já uma lembrança.
Hoje a memória que latejava em meu corpo e em minha mente repousa no "esquecimento de reserva". Isso permite que eu viva e pense. Está "à mão". Às vezes ela vem, por si só, como afecção. Mas já não embaça a vista. Outras vezes sou eu mesmo quem vou em sua busca. E sinto uma espécie de satisfação por encontrá-la. Não, não quero me esquecer do que vivi. Se alguém um dia inventar um remédio que cause esquecimento, merecerá o Nobel. E a pena de morte.
Referências:
BORGES, Jorge Luis. Funes, el Memorioso. In: Obras Completas: 1923-1949. 4ª ed. Buenos Aires: Emecé, 2009, p. 583-590.
RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François
[et al.]. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.

As memórias fazem você o que é. Fazem você mais forte e colaboram pra você não repetir os erros.
ResponderExcluirSim, meu amigo, e seu próprio lidar com suas memórias me ajudou muito a lidar com as minhas. Você não imagina o quanto!
ExcluirLembrei de "Brilho Eterno de uma Mente Sem lembranças", quando li o teu texto. Algumas coisas tornam-se difíceis de esquecer. Precisamos de terapia? Ou, existe alguma técnica "Freudiana"? Queria a "Lacuna Inc". Seria mais fácil deletar todas as informações- ruins e pensar numa outra perspectiva. Ótimo texto, Jerry. Tenho gostado de tua escrita. Parece que eu te vejo em cada texto, letra, ponto ou, vírgula. És um ser fantástico! Pena que, tudo foi tão rápido.
ResponderExcluirObrigado pela tempo empenhado em ler meu texto. Meus textos, aliás. Bom saber que de algum modo toco as pessoas. Obrigado, de coração.
ResponderExcluirJerry, Primeiramente Parabéns pelo belo texto, Adorei ela e esta frase em pricipal "É que pensar em esquecer é já uma lembrança." e que nossa lembraças nos mova em horizontes cada vez mas dispostos a enfrenta as barreiras, por que elas mesmos nos torna mas forte.
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